| Na
imprensa
Um artigo e um abaixo-assinado
provocam debate no Brasil sobre o papel público
do intelectual
O início
Assim começa o debate: o artigo
‘Edward Said (1935-2003)’, do crítico
e poeta Nelson Ascher, é publicado em 29 de setembro
no jornal Folha de S.Paulo. Fazia menos de uma semana
que Said havia morrido, em Nova York.
Ascher argumenta que Said – por
seu engajamento – introduziu no meio acadêmico
um parâmetro falho de análise sobre sociedade
e cultura: o de avaliar pessoas e trabalhos não
por suas aptidões, mas por inclinações
políticas. Desse modo, a influência intelectual
de Said seria avassaladora e perniciosa. No começo
de sua crítica, ele escreve: “Said deve
sua reputação a ter se tornado o mais
articulado defensor
da ‘causa palestina’, algo
que nada tinha de difícil se considerarmos que
seus competidores nessa área, quando não
estão ocupados explodindo ônibus escolares
ou pizzarias, satisfazem-se divulgando falsificações
anti-semitas. Ainda assim, sua dança acadêmica
dos sete véus, sobrepondo camadas de jargão
marxista, antiimperialista e pós-colonial, jamais
ocultou que seus objetivos eram idênticos.”
Como o debate começa No dia 4 de
outubro é manifesta uma breve resposta, no mesmo
jornal, que exprime: “O artigo do sr. Nelson Ascher,
a pretexto de comentar a morte de Edward Said, é
uma ofensa a todos os que alimentam, como fez o intelectual
palestino durante toda a sua vida, a esperança
de ver israelenses e palestinos conviverem em paz, com
justiça. O escrito é uma baixeza deliberada
e covarde, que merece repúdio, e não resposta.”
Ela é assinada por Antonio Candido,
José e Guita Mindlin, Francisco de Oliveira,
Arnaldo Antunes, Celso Furtado, Roberto Schwarz, Marilena
Chaui, Emir Sader, Raduan Nassar, Ruy Fausto, Milton
Hatoum, Paulo Arantes, Davi Arrigucci Jr., Fábio
Konder Comparato, Fernando Novais, João Manuel
Cardoso de Mello, Anna Mariani, Monique Gardemberg,
Jacob Gorender, Renina Katz, Liana Aureliano, Ricardo
Antunes, Luiz Gonzaga Belluzzo, Paulo Sergio Pinheiro,
Carlos Nelson Coutinho, Maria Victoria Benevides, Flávio
Aguiar, Ana Luisa Escorel, Francisco Foot Hardman, Maria
Rita Kehl e mais 156 assinaturas.
O manifesto, com 187 nomes, foi organizado
por um coletivo de pessoas, entre elas, Daniela Moreau,
Ivana Jinkings, Liana Aureliano e Milton Hatoum, que
combinou diferentes altercações até
a publicação do texto final.
Argumentações morais e intelectuais
Para Ascher, como disse à CULT, a publicação
do texto foi propícia para expor determinadas
idéias sobre Said. O que ele tinha a dizer julgou
que “poderia fazê-lo naquele espaço
preciso, naquelas circunstâncias e manifestando
exatamente
aqueles pontos de vista”. Entre
eles, o de que Orientalismo, o livro mais conhecido
de Said, “é uma diatribe confusa, desinformada
e raivosa que se resume na aplicação a
um caso particular da tese genérica de acordo
com a qual intelectuais são, em sua maioria,
lacaios da classe dominante”.
Ascher termina sua discussão afirmando
que “as verdadeiras vítimas de suas idéias
(de Said) foram antes seus conterrâneos (palestinos),
que ele ajudou a conduzir rumo a novos desastres”.
Reside aí um pouco mais do que desacordo. O debate
se encontra deslocado do campo intelectual, estimulando
assim a polêmica. “Não julgo ter
autoridade para falar sobre a obra de Said, embora tenha
lido uma quantidade razoável de seus artigos,
mas Ascher foi ofensivo. Disse para os meus amigos que
infelizmente agora, aos meus 77 anos, não daria
para escrever sobre o Ascher no dia seguinte à
morte dele”, ironiza Michel Rabinovitch, cientista
na área de parasitologia e um dos assinantes
do manifesto.
Embora discorde do texto final do manifesto,
pois considera algumas passagens como ataque pessoal,
o bibliófilo José Mindlin complementa
a opinião de Rabinovitch: “Mantenho minha
restrição ao conteúdo e à
forma do artigo que Ascher publicou. É de se
esperar o momento em que a razão supere a paixão,
só assim será posto fim à atual
escalada de violência que assola a região
e vem vitimando tantas pessoas inocentes de ambos os
lados.”
A desqualificação da obra
e da figura pública de Said é repugnada,
também, pelo economista Emir Sader, que afirma
ser este “um artigo de infâmias, sem argumentos,
revelando que seu autor não possui nenhum estofo
intelectual para polemizar”. Sem interesse no
debate oral com Ascher, a antropóloga Betty Mindlin
conta que participou dessa resposta coletiva como forma
de expressão de respeito e admiração
pelos escritos de Said. “O drama dos palestinos
nos sensibiliza. Ler a sua autobiografia, seus ensaios
sobre a questão palestina, Orientalismo ou Cultura
e política parece- me um passo para a análise,
para reflexões que levem ao entendimento e à
paz.”
O que se debate dentro e fora do campo
intelectual Em sentido oposto à sua intenção,
a de promover a paz pela igualdade como um valor intelectual,
os textos de Said – especialmente os relacionados
ao Oriente Médio – foram vistos como apelo
à violência. Por um lado, como explica
Sader, pela influência provocada pelas teses do
Orientalismo, “que revolucionaram a forma de pensar
o Oriente e o Ocidente, com toda sua conotação
eurocentrista e apoiado numa sólida argumentação”.
Partilhando de análise semelhante,
Milton Hatoum reitera: “Os ataques infames e covardes
contra ele e sua obra datam da publicação
do Orientalismo e até hoje não cessaram.
O que realmente incomoda os fanáticos de extrema
direita é a sua crítica consistente ao
sionismo ultraconservador e ao Estado de Israel no que
diz respeito à questão do povo palestino.
Said nunca criticou os judeus nem escreveu
uma única linha contra esse povo. Ao contrário,
ele costumava assinalar que os palestinos eram vítimas
das vítimas.” As críticas a Said,
como se observa, não se resumem à esfera
intelectual – não apenas no caso de Ascher
–, mas por causa das posições dele
na questão do Oriente Médio, em particular
da Palestina. “Reivindicava o direito a um Estado
por parte dos palestinos, denunciava o papel do lobby
sionista nos EUA, desqualificando esse país como
mediador no conflito, fez a denúncia dos acordos
de Oslo, assim como a vindícia de um Estado binacional”,
examina Sader.
De fato, ele não se prendeu às
questões circunscritas ao (seu) universo da literatura.
Intelectual comprometido, pensava que se deveria penetrar
na consciência israelense com tudo o que estivesse
ao alcance. “Falar ou escrever para israelenses
quebra o tabu deles em relação a nós.
Foi esse medo de ser interpelado pelo que sua memória
coletiva suprimiu que desencadeou todo o debate sobre
ler literatura palestina. Tabus e proibições
não devem reger a vida real”, escreveu
ele em Paralelos e paradoxos, com o músico e
maestro de origem judaica Daniel Barenboim.
O papel público de escritores e
intelectuais O sociólogo Francisco de Oliveira
(também assinante do manifesto) acredita que
a posição de Said foi como a de Hannah
Arendt, “a de ultrapassar o limite do nacionalismo
para chegar à compreensão do outro, no
caso dele, Israel, e no caso de Arendt, a condição
judaica, para entender os árabes e mais além”.
Segundo ele, isso é o que faz um intelectual.
A colocação de Oliveira põe em
debate outra questão que perpassa não
apenas a obra de Said, mas o evento cultural ocorrido
a partir da crítica de Ascher.
Qual é, então, o papel público
dos intelectuais e dos escritores?
Ascher responde: “Eu diria que há
de fato dois modelos: um europeu e, em parte, hispano-americano,
e outro, anglo-saxão. De acordo com o primeiro,
os intelectuais, quer dizer, escritores, poetas, mas
também atores, cantores, professores etc. desempenham,
de certa forma, um papel privilegiado na sociedade,
ou seja, eles são a vanguarda do saber ou algo
assim. Talvez isso tenha a ver com analfabetismo, catolicismo,
sociedades escravagistas etc. De acordo com o segundo
modelo, todo e qualquer cidadão é tão
cidadão quanto qualquer outro: o rei não
mais que o súdito, o escritor não mais
que o analfabeto. Eu entendo quanto seduz os intelectuais
a idéia de que eles têm algo diferente,
qualitativamente melhor, a dizer, mas, em última
instância, minha posição é
populista, ou seja, a Sebastiana doméstica e
o Mané da flanelinha têm tanto direito
a opinar sobre a condição da coisa pública
quanto eu, o doutor, o mestre, o prêmio Nobel
etc.”
Said compartilhava, em termos, de opinião
semelhante à de Ascher. Acreditava que igualdade
seria princípio como valor intelectual. E, ao
afirmar que as chances de reprodução digital
desordenavam a idéia de um público (perante
a existência de um público virtual), permitindo
assim um menor domínio dos regimes e das censuras,
Said incluía em sua análise que o fato
de escrever num espaço expandido (a presença
da Internet) teria outras conseqüências.
O papel do intelectual seria o de elucidar e derrotar
tanto o silêncio imposto quanto o silêncio
conformado, levando em conta o lugar social do discurso:
“Para um intelectual norte- americano, a responsabilidade
é bem maior”.
Ascher somente situa que o texto deve
se sustentar por sua própria lógica ou
coerência interna. “Não são
meus diplomas ou livros publicados que me legitimam,
mas minha capacidade ou falta de capacidade de falar
coisa com coisa e de fornecer insumos para que meus
leitores pensem, não concordando ou discordando
necessariamente do que digo.” Ascher ao fazer
crítica a Said, no entanto, identificou obra
e autor, não se detendo apenas na lógica
do texto. “Said tornou-se, desde os anos 50, um
norte-americano e beneficiou-se tanto dessa condição
como da imagem romantizada de exilado para atingir o
ápice do mandarinato universitário.”
Ascher, por fim, afirma que o mercado livre de idéias
decidirá quem tem o que dizer, quais as idéias,
interpretações e propostas que fazem sentido
– “quanto mais haja, melhor”.
Mas, para Said, a questão, e a
postura, estão em outro território. Para
ele, “parte daquilo que vemos como sendo atividade
do intelectual é não apenas definir a
situação, mas também discernir
as possibilidades para intervenção ativa”.
Um intelectual merece esse título quando está
na esfera pública. Debatendo.
Remembering Edward Said
By Daniel Barenboim
Perhaps the first thing one remembers
about Edward Said was his breadth of interest. He was
not only at home in music, literature, philosophy, or
the understanding of politics, but also he was one of
those rare people who saw the connections and the parallels
between different disciplines, because he had an unusual
understanding of the human spirit, and of the human
being, and he recognized that parallels and paradoxes
are not contradictions.
He saw in music not just a combination
of sounds, but he understood the fact that every musical
masterpiece is, as it were, a conception of the world.
And the difficulty lies in the fact that this conception
of the world cannot be described in words—because
were it possible to describe it in words, the music
would be unnecessary. But he recognized that the fact
that it is indescribable doesn’t mean that is
has no meaning.
This very curious mind, of course, allowed
him privileged glimpses into the subconscious of people,
of creators. And added to that he had a very unrestrained
courage of utterance, and this is what earned him the
admiration, the jealousy, and the enmity of so many
people.
Many Israelis and Jews did not want to
tolerate his criticism, not just of the present Israeli
government, but of a certain mentality that he identified
in Israeli thoughts and deeds—namely the lack
of empathy with the fact that the very same war of independence
of Israel in 1948, which brought about the acquisition
of a new identity for the Jewish part of the population,
was not just a military defeat, but also a psychological
catastrophe for the non-Jewish population of Palestine.
And therefore he was critical of the inability of Israeli
leaders to make the necessary symbolic gestures that
have to precede any political solution. The Arabs, on
the other hand, were and are still unable to accept
his sensitivity toward Jewish history, limiting themselves
to repeat their innocence as far as the suffering of
Jewish people is concerned.
It was precisely this ability of his to
see not only the different aspects of any thought or
process, but their inevitable consequences as well and
also the combination of human, psychological, and historical,
as the case may be, “pre-history” of such
thoughts and processes. He was one of those rare people
who was permanently aware of the fact that information
is only the very first step toward understanding. And
he always looked for the “beyond” in the
idea, the “unseen” by the eye, the “unheard”
by the ear.
It was a combination of all these qualities
which led him to found together with me the West-Eastern
Divan, which provides a forum for young Israeli and
Arab musicians to learn together music and all its ramifications.
The Palestinians have lost one of the
most eloquent defenders of their aspirations. The Israelis
have lost an adversary—but a fair and humane one.
And I have lost a soul mate.
Daniel Barenboim
COLUNA VISÃO – 2 DE OUTUBRO
2003
Said, o Intelectual e a Causa
Boa ventura de Souza Santos
Edward Said não era muito conhecido
entre nós. De origem palestiniana, professor
de literatura comparada na Universidade de Columbia
e o intelectual mais destacado na defesa da causa palestiniana,
morreu aos 67 anos em Nova Iorque, no passado dia 24
de Setembro, vítima de leucemia. A importância
de Said decorre de uma combinação única
entre perfil, obra e causa. Said era um intelectual
público, uma categoria de intelectual em extinção.
O intelectual público é
o profissional das ciências ou das artes que intervém
fora do campo profissional, no espaço público,
com o objectivo de defender ideias, valores, causas
em que se revê como cidadão, consciente
de que em tal defesa participam vários conhecimentos
para além daquele de que ele é um profissional
especializado. O intelectual público é
um alvo fácil de críticas, quer por parte
dos seus adversários políticos, quer por
parte daqueles (às vezes, os seus melhores discípulos)
para quem o intelectual se deve confinar ao campo intelectual,
deixando a política aos profissionais da política.
Pierre Bourdieu, outro notável intelectual público,
também recentemente falecido, ilustra bem o que
acabo de dizer. No caso de Edward Said, os ataques vieram
dos conservadores norte-americanos, do lobby israelita
e dos fundamentalistas islâmicos. Em 1999, a revista
conservadora Commentary chamava-lhe “o professor
do terror”. Porquê? Na resposta fundem-se
a obra a causa.
Crítico literário e musical e sociólogo
da cultura, Said é sobretudo conhecido pelo seu
livro Orientalism, publicado em 1978. Influenciado por
Foucault, Fanon e Levi-Strauss, Said defende que há
uma relação profunda entre cultura e poder,
de tal maneira que as representações culturais
entre grupos sociais ou entre países reflectem
as relações de poder que há entre
eles. Quanto mais desigual é essa relação
mais enviesada é a representação
do mais poderoso a respeito do menos poderoso. Foi assim,
segundo ele, que se criou no Ocidente a imagem dos orientais,
e nomeadamente dos árabes, como sensuais, corruptos,
preguiçosos, atrasados, violentos, em suma, perigosos.
Nos dois últimos séculos esta imagem legitimou
o poder do Ocidente sobre o Oriente, sobreviveu ao fim
do colonialismo e continua hoje a ser o fundamento da
política internacional sempre que estão
em causa estas duas regiões geopolíticas
e geoculturais. O exemplo mais dramático da sua
vigência é o tratamento internacional do
conflito israelo-palestiniano, a causa de Said.
Nas últimas três décadas, Said foi
o mais lúcido defensor das legítimas aspirações
do povo palestiniano a viver em paz e com independência
na sua terra, ao mesmo tempo que defendia o mesmo direito
para os judeus. Isso lhe valeu a hostilidade dos fundamentalistas
de ambos os lados. Sempre se manifestou contra o terrorismo
mas nunca deixou de afirmar que o terrorismo dos fortes,
do Estado de Israel, era muito mais ignominioso que
o terrorismo dos fracos, dos bombistas suicidas. Revoltava-se,
como muitos de nós, contra a renda do Holocausto
de que o Estado colonialista de Israel continua a usufruir
no Ocidente para poder perpetrar os seus crimes contra
populações civis inocentes e beneficiar
da isenção de condenações
e sanções que foram aplicadas a outros
governos repressivos, como foi o caso da África
do Sul. Morreu atormentado pelo muro da vergonha que
vai separar famílias, campos de culturas e até
universidades, como é o caso da universidade
Al Quds. Talvez sem o saber, o presidente desta universidade
ilustrou bem a tese do orientalismo ao afirmar: “vamos
ficar divididos em jaulas e o único movimento
permitido será entre jaulas, tal como no jardim
zoológico”.
DESTAQUE:
Morreu um dos mais lúcidos intelectuais do nosso
tempo
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