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Equívocos ocidentais sobre a cultura árabe

No ensaio “Lá e Aqui”, escrito pela escritora Susan Sontag para a revista “The Nation”, em 1995, a saudosa ensaísta norte- americana chamava a atenção para a maneira como certos fenômenos são tratados pela mídia internacional.

Depois de ter vivido em Sarajevo, e presenciado a indiferença com que governos europeus trataram o massacre da Bósnia, Sontag constatava, com melancolia, a maneira como a imprensa vinha cobrindo a guerra dos Bálcãs.

E escreve: “Esse é o primeiro genocídio europeu em nosso século acompanhado de perto pela imprensa mundial e documentado pela TV todas as noites. Em 1915, na Armênia, não havia repórteres que mandassem reportagens diárias para a grande imprensa, e não havia equipes de filmagem em Dachau e Auschwitz. Até o genocídio bósnio era de se imaginar que, se as notícias fossem divulgadas, o mundo faria alguma coisa. A cobertura do genocídio na Bósnia pôs fim a tal ilusão”.

O texto de Sontag, escrito há mais de dez anos, bem que poderia servir como epígrafe do livro “Edward W. Said – Cultura e Resistência: Entrevistas do Intelectual Palestino a David Barsamian”, que acaba de chegar às livrarias.

Reunião de uma série de entrevistas feitas com Said de 1999 – um ano antes do início da Intifada de Al-Aqsa (levante palestino contra a ocupação atualmente em vigor) até 2003, no livro Said expõe suas idéias sobre temas como o terrorismo no conflito israelo-palestino, a invasão do Iraque e a poesia palestina contemporânea.

Barsamian é fundador e diretor do Alternative Radio em Boulder, no Colorado. Morto em 2003, Said nasceu em Jerusalém em 1935 e estudou no Cairo e na Palestina.

Professor da Universidade de Columbia, e um dos mais refinados críticos literários norte-americanos, Said foi um dos mais importantes defensores na tentativa de estabelecer um verdadeiro diálogo entre judeus e palestinos.

Seus livros “Orientalismo” e “Cultura e Imperialismo” são referências obrigatórias para quem quiser entender a forma equivocada como o Ocidente sempre tratou a cultura árabe.

Na entrevista abaixo, feita com o escritor Milton Hatoum, que assina a apresentação da edição brasileira do livro de Said, o romancista conversa sobre a impressionante atualidade que o livro de Said ganha com a explosão do conflito no Líbano.

Uma das mais gratas surpresas da literatura brasileira – Hatoum foi o vencedor este ano do prêmio Jabuti na categoria romance com “Cinzas do Norte” – ele é autor de livros como “Relato de um Certo Oriente” e “Dois Irmãos” e um dos maiores divulgadores da obras de Said no país.

No ano passado, ele traduziria “Representações no Intelectual: as Conferências Reith de 1993”, uma série de conferências feitas por Said e transmitida pela rádio britânica BBC. Confira abaixo os principais trechos da conversa com Hatoum.

O TEMPO – Com a guerra no Líbano, o livro de Said ganha uma atualidade impressionante. Na sua opinião como Said reagiria a esse novo conflito?
Milton Hatoum – É difícil saber, mas todas as argumentações de Said sobre o conflito no Oriente Médio estão no livro “Cultura e Resistência”. Ele certamente relacionaria esse ataque e invasão aos eventos de 1982, quando Israel ocupou o Líbano e ainda mantém sob ocupação as Fazendas de Shebaa, que a Síria doou ao Líbano. Pouca gente menciona isso, mas Shebaa é mais um território árabe ocupado por Israel.

Sem contar a indiferença, até agora, do governo Bush em relação ao conflito...
Penso que Said faria também uma análise aprofundada do projeto expansionista do governo Bush. Rigorosamente nenhum governo norte-americano apoiou Israel de uma forma tão incondicional como o atual.

É uma grande hipocrisia pensar que Bush quer instaurar a democracia no Oriente Médio. Basta mencionar que os países árabes aliados dos EUA – Jordânia, Egito, Arábia Saudita – não são nada democráticos.

O petróleo é a questão...
Exato. E, no caso de Israel, seria o caso de perguntar pela milésima vez: por que este país, que se diz democrático, não respeita as resoluções da ONU e devolve aos palestinos e à Síria os territórios ocupados? Por que não reconhece o governo palestino, eleito democraticamente?

Por que agir com tanta brutalidade? A destruição do Líbano – um país tão belo –, os ataques que mataram mais de mil civis e geraram 1 milhão de refugiados são sintomas claros de que Israel não está preparado para a paz. E desta vez o mundo todo percebeu isso.

Além disso, é imprescindível um esforço de compreensão do mundo árabe no Ocidente...
Compreensão sem exotismo. É como brasileiro, que procura vencer complexos de inferioridade pela via da autofolclorização: futebol, samba-pagodeiro, caipirinhas, capoeirismos. Resultado: ninguém leva a sério o país de Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade e tantos outros!

Não passa de um Carnaval sem fim. Árabe não é dança do ventre, coerção de mulheres e Islã intolerante. São estereótipos fabricados. Há uma questão nacional irresolvida, uma civilização a ser salva, uma cultura a ser respeitada, sonhos a serem cultivados.

Estrangular a Palestina e destruir o Líbano representam um crime contra a humanidade, praticado por quem deveria bani-lo para sempre, em nome da tal hiperpotência, que manda e desmanda na chamada “comunidade internacional”.

A Palestina e o Líbano são os pontos nevrálgicos da modernidade árabe. Devastar ambos tem fundamento?

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