Para pesquisador, mídia comete muitas distorções na cobertura do Oriente Médio
Izabela Vasconcelos, de São Paulo - O jornalista Ibrahim Salleh, coordenador da Seção de Educação e Pesquisa em Jornalismo da International Association For Media & Communication Research (IAMCR), aponta que a imprensa se concentra nos lados extremos dos conflitos do Oriente Médio e comete falhas e grandes distorções nessa cobertura.
O especialista participou do 7º Encontro Nacional dos Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor), nesta quinta-feira (26/11), na USP. “É um problema dos comunicadores, não estão ouvindo o outro lado, apenas a violência e a guerra. A mídia se concentra em vozes extremas, e não dá espaço para vozes moderadas”, declarou Salleh, que enfatizou que a maioria da população do Oriente Médio não é formada por extremistas, como a imprensa dá a entender. Salleh, que é representante do Academic Council on the United Nations System (ACUNS) para África e Oriente Médio, afirma que a imprensa não separa ou contextualiza os fatos dos países árabes. “As pessoas da região são vistas como violentas. A mídia faz uma distorção entre a política do governo e o povo, passa só a visão da política do governo e não mostra o contexto do povo”, explica. Para o pesquisador, essas falhas na cobertura são causadas pelo despreparo cultural dos jornalistas. ”Na maioria das vezes as histórias acabam sendo cobertas por pessoas que caíram de paraquedas, que acabam distorcendo algumas coisas”. O jornalista deu um exemplo da consequência da falta de preparo da imprensa na vida da população árabe. Salleh explicou que após as imagens de presos iraquianos em Abu Dhabi serem divulgadas na mídia, centenas deles cometeram suicídio, porque as fotos mostravam os presos sendo torturados pelos soldados americanos, além de noticiar que alguns deles foram abusados sexualmente. A partir das imagens e das notícias, os iraquianos se suicidaram ou pediram para serem executados, já que, culturalmente, esses tipos de torturas simbolizam a perda da dignidade. “Não vi um único jornal noticiar isso. É o típico exemplo de paraquedas, de não contextualizar, não pensar nas consequências. É a negligência e a ignorância. As pessoas não estão fazendo o papel de pesquisar, investigar, para entender a situação”, criticou Salleh, que admitiu que existia uma denúncia ali, mas que a imprensa não tomou o devido cuidado na divulgação da notícia.



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