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Política é continuação da guerra (do dia 10/12)

por Lourival Santanna, enviado do jornal a Beirute

A bola rola no gramado do Al-Ahad, o time do Hezbollah. O volante brasileiro Leandro Souza, que chegou na véspera a Beirute, começa o seu primeiro treino coletivo fazendo o sinal da cruz. Ninguém repara. Leandro, que trocou o Anápolis pelo Al-Ahad por um salário de US$ 6 mil (US$ 2 mil dos quais pagos pelo empresário libanês Samir Shamkla, da Tríplice Fronteira), não é o único não-xiita no time do Partido de Deus.

Além do atacante André Baracho, outro brasileiro que também chegou na quarta-feira, vindo do time japonês Ventforet Kofu, jogam no Al-Ahad um nigeriano, um armênio, um maronita e um sunita - como o técnico iraquiano Anuar Jassam, ex-treinador da seleção de seu país. 'Nossa intenção não é misturar política com futebol, pois isso tem gerado violência entre as torcidas', diz o deputado Mohamed Haidar, do Hezbollah, que veio prestigiar o treino do Al-Ahad, campeão libanês em 2004 e 2005. 'Investimos nos esportes para manter os jovens longe do crime e das drogas.' Al-Ahad - 'A Promessa', em árabe - é parte de uma ampla teia de instituições do Hezbollah, que inclui hospitais, escolas, mesquitas, orfanatos e empresas, como a rede de postos de combustíveis Al-Aytam (Os Órfãos). Mas, com sua escalação timidamente ecumênica (a maioria dos jogadores ainda é xiita), Al-Ahad encerra uma outra promessa: a projeção do Hezbollah como liderança nacional, e não apenas xiita

A cidade de barracas que a organização vem erguendo há uma semana na frente do Grand Serail, o palácio do governo - hoje cenário de mais uma megamanifestação - é a primeira incursão da milícia xiita na esfera de ação, digamos, 'cívica'. Carl von Clausewitz escreveu que 'a guerra é a continuação da política por outros meios'. Num certo sentido, o Hezbollah tenta fazer da política a continuação da guerra

O estopim para a ruptura com o governo foi a criação de um tribunal internacional para julgar os suspeitos do assassinato do primeiro-ministro Rafic Hariri, em março do ano passado, e de outras 14 pessoas. Os suspeitos são vinculados à Síria, que, junto com o Irã, patrocina o Hezbollah. Depois da saída do Hezbollah do governo e da aprovação do tribunal pelo gabinete, a lista subiu para 16: o ministro da Indústria, o cristão maronita Pierre Gemayel, foi morto numa emboscada, dia 21. A captura de dois soldados israelenses e a guerra que se seguiu, em julho, também coincidiram com o momento em que as investigações do assassinato avançavam para uma conclusão, incriminando agentes de inteligência ligados à Síria

'O verdadeiro motivo pelo qual saímos do governo é que ele é comandado pelos americanos e franceses', disse na quarta-feira ao Estado o deputado Mohamed Raad, do Hezbollah, líder da oposição no Parlamento. 'Tem gente que quer assinar um acordo com Israel, esquecendo as Fazendas de Cheba (ocupadas no sul) e os prisioneiros libaneses', acusou, listando os contenciosos que justificaram a captura dos soldados

Em sua cruzada rumo ao poder, o Hezbollah e a Amal atraem políticos não-xiitas, como o general cristão maronita Michel Aun e três ex-primeiros-ministros sunitas. O que é natural: pela Constituição libanesa, o presidente da República é cristão maronita; o primeiro-ministro, sunita; o presidente do Parlamento, xiita. Mas, nas praças e ruas em frente ao palácio, ocupadas por milhares de manifestantes vigiados por tanques e soldados do Exército, é visível a desproporção entre xiitas e cristãos (quase não há sunitas). Para compensá-la, a Amal escalou seus militantes xiitas para ostentar o laranja do movimento de Aun - outrora um feroz líder nacionalista anti-sírio

'A militância do Hezbollah não é muito sutil', ridiculariza Samir Franjieh, um dos mais importantes líderes cristãos maronitas no governo. 'Na primeira manifestação (dia 1.º), Aun fez um discurso exigindo a renúncia do governo e a multidão respondeu: 'Allah-u-Akbar' (Alá é grande). Ele não estava falando para o público dele.' NOVO LÍBANO A mistura de grupos religiosos antes nitidamente separados reflete a redistribuição territorial de comunidades deslocadas pela guerra civil (1975-90), pela ascensão social dos xiitas e pela emigração ou empobrecimento dos cristãos. No passado, os investimentos franceses e americanos eram destinados preferencialmente a parceiros locais cristãos. A partir de 1990, deram lugar aos sauditas, associados aos libaneses sunitas; e ao dinheiro do Irã, que irriga as comunidades xiitas por meio do Hezbollah. A guerra e a reconstrução intensificaram essa transferência de recursos

TENSÃO Essas mudanças geram tensões. Um empresário sunita conta que se mudou de Ashrafiyeh, elegante área tradicionalmente sunita de Beirute, para o bairro cristão de Ain Saadi, depois que três famílias xiitas se mudaram para seu prédio, durante a guerra com Israel. 'Cruzávamos com as mulheres de chador (vestimenta islâmica). Não quero que minhas filhas convivam nesse tipo de ambiente', explicou o empresário. 'Trabalhei 20 anos para comprar aquele apartamento. Eles, que são do Hezbollah, pagaram à vista.' Um empresário cristão maronita falido que se prepara para emigrar para a Austrália resume: 'Meus filhos não vão viver na República Islâmica do Líbano.' Os xiitas não são mais a classe pobre e marginalizada do Líbano nem toleram decisões à sua revelia e à de seus poderosos aliados na região. É isso o que quer dizer a cidade de barracas no elegante coração de Beirute.

Preconceitos anti-árabes por Lejeune Mato Grosso

Por força de escrever há quase cinco anos para o Portal Vermelho (www.vermelho.org.br) exclusivamente sobre Oriente Médio, é dever de meu ofício diário ler tudo o que sai publicado na grande mídia sobre essa região, especialmente sobre os árabes. Não só em nosso país e na nossa língua pátria, mas em outras línguas, usando essa magnífica ferramenta que é a Internet.

No último dia 10 de dezembro, domingo passado, deparei-me com o artigo “Política é continuação da guerra”, de autoria do jornalista Lourival Santana, que foi enviado especialmente à Beirute, Líbano, para cobrir os últimos acontecimentos desde a morte do sucessor do clã dos Gemayel, cristãos maronitas, de direita e pró-estadunidenses.

Santana é jornalista antigo, competente e respeitado na sua categoria profissional. Sou seu leitor há anos. No entanto, ele comete erros e injustiças que afrontam os que, como eu e tantos outros, apóiam decisivamente a causa dos povos árabes e os palestinos em particular. De meu modesto ponto de vista, o jornalista, em que pese a sua experiência, comete pelo menos quatro erros. Não os ordenarei por prioridade, nem por tipo e categoria, mas eles se misturam a questões de infração de normas básicas da profissão e grosserias contra um povo.

1. Fala em “patrocínio do Irã” ao Hezbollah – em duas vezes pelo menos, ao se referir ao Partido de Deus (em árabe Huzb Allah), a frase vem seguida da adjetivação “patrocinado pelo Irã” e “apoiado e financiado pelo Irã”. Ora, Santana não pode imaginar que o governo de um país possa ajudar organizações políticas e sociais que atuam em outras nações? A Ford Foundation, a Comissão Full Bright, a Fundação Konrad Adenauer e tantas outras ONGs de várias matizes, apoiadas e financiadas por países capitalistas centrais, com os mais variados objetivos, podem e atuam no mundo inteiro, mas apenas quando o Irã ajuda é que é condenável? Nunca li nas matérias de Santana, quando faz menção a Israel, a frase seguida da adjetivação “financiado e apoiado pelos Estados Unidos”. Não seria mais justo que assim procedesse o jornalista isento e competente?

2. A criminalização da Síria – estranho que, ao comentar sobre o Tribunal da ONU para julgar os possíveis assassinos de Hafic Hariri, ex-primeiro-ministro morto no ano passado, anti-Síria, Santana tenha de imediato comprado a versão dos meios de comunicação de massa, todos, sem exceção – pelo menos os grandes –, de que quem mandou matar o ex-primeiro-ministro foi o governo da Síria. Poderia até dizer isso, mas ao mesmo tempo deveria afirmar que entidades, grupos e partidos no Líbano e em vários países do mundo contestam essa versão e alguns chegam a dizer que essa morte poderia ter mesmo o dedo da CIA e do governo estadunidense, os únicos que ganharam com o assassinato;

3. Como jornalista e repórter experiente, Santana sabe que não pode ficar emitindo suas opiniões pessoais o tempo todo. Assim, enxerta na sua matéria quatro frases, depoimentos de pessoas de tipos variados, para ilustrar a situação do Líbano hoje. Sem nenhuma exceção, os quatro depoimentos são horríveis, de meu ponto de vista, preconceituosos, antiárabes e antiislâmicos. Chegam a ridicularizar, no texto da matéria, o general da reserva Michel Aoun, por ele ter percebido que atacar a Síria hoje é fazer o jogo dos estadunidenses, que já controlam boa parte do Oriente Médio. Lamento que um jornalista tão experiente não pudesse equilibrar depoimentos de visões de ambos os lados. Até mesmo porque esse profissional assistiu à maior manifestação da história do Líbano, com dois milhões de pessoas, no último domingo, quase metade da população do país (com pouco mais de quatro milhões de habitantes). Será que o jornalista não encontrou ninguém que falasse uma frase pequena de crítica aos maronitas, aos estadunidenses, a Israel? Duvido muito;

4. Crítica ao assistencialismo – o jornalista descreve o extenso e importante trabalho de assistência que o Partido de Deus presta não só aos muçulmanos xiitas, mas à população pobre em geral. Isso não é novidade. Entidades assistenciais fazem isso no mundo inteiro. A constituição da Alemanha diz que parte do PIB do país deve ser investida em doações para entidades filantrópicas que prestam serviços a povos de nações pobres e em desenvolvimento no mundo inteiro. A Holanda a mesma coisa. Quem nunca cruzou com alguma entidade que recebe verbas internacionais para projetos sociais no Brasil? Sabemos que o Estado, em meio a essa onda neoliberal ainda fortíssima, é omisso na ação aos mais pobres e desfavorecidos. Por isso, serviços assistencialistas e paternalistas que essas entidades prestam minimizam sofrimentos, ainda que saibamos que não vão resolver a situação de penúria de boa parte da população que depende dessa ajuda humanitária. Mas o jornalista menciona com desdém, com preconceito, os projetos assistenciais do Hezbollah à gente pobre e humilde da periferia do Líbano, enfatizando que isso é feito com “dinheiro do Irã”.

Lamento esse posicionamento. Não é essa a imprensa que desejo para um país democrático e avançado como o nosso Brasil. O editor do jornal Le Monde Diplomatique, Bernard Cassen, usa uma expressão que é a de “jornalistas de mercado”. Para um profissional desse, que sai da faculdade com a cabeça feita pelo neoliberalismo e entra nas redações com vontade de trabalhar, não precisa editor ou chefia alguma pedir-lhe que fale mal dos árabes, que chame lutadores palestinos de terroristas e soldados israelenses que cometem atrocidades apenas de “soldados”. Eles falam, escrevem, na nossa língua pátria, o que se escreve na língua do império. Espero, sinceramente, que Lourival Santana não seja nunca um desses.

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Lejeune Mato Grosso

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