Reflexões sobre o Mundo Árabe em Curitiba
Com realização de Andrade Vieira Comunicação e Marketing, o Instituto da Cultura Árabe promoveu em Curitiba, entre os dias 12 e 20 de março, o curso Reflexões do Mundo Árabe Contemporâneo e a Mostra de Cinema Árabe Contemporâneo, edições reduzidas de curadorias já conhecidas do público paulistano, promovidas pelo mesmo Instituto.
Sob a coordenação geral de Soraya Smaili e Heloisa Abreu Dib e a coordenação local de Maria Christina de Andrade Vieira, a atividade teve lugar nas dependências da Associação Comercial do Paraná, com apoio e patrocínio significativos dessa mesma Associação, bem como da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, Consulado da Síria, Mabu Hotéis e Resorts, Instituto Cultural Cinevídeo1, Federação das Associações Comerciais e Empresariais do Estado do Paraná e Consulado Honorário da Turquia - Curitiba.
O curso e a mostra proporcionaram ao público inscrito uma visão panorâmica mas pontual das transformações do mundo árabe mais antigo até o atual, incidindo em localidades e momentos históricos em contínuas reconfigurações de ordem geopolítica, seja por ação centrífuga partindo das unidades políticas do orbe árabe-islâmico em expansão nos séculos VII e VIII, seja pelas condicionantes externas que atuaram sobre aquele orbe a partir de seu gradual declínio século XIII em diante, passando pelas ditas Cruzadas, Reconquista Ibérica, invasões mongóis que culminaram no multissecular Império Otomano, até os colonialismos britânico e francês do século XIX e o ainda atuante “imperialismo” estadunidense e seu enclave político-militar no Oriente Médio, o Estado de Israel, com reverberações na macroestrutura daquela porção do planeta que, há mais de meia centúria, fazem perdurar a situação de instabilidade, fazendo dessa região um centro de atenções globais.
O Curso
Na aula do dia 12, o cientista político José Farhat, graduado pela Université Saint Joseph de Beirute e atual diretor do Centro de Comércio do Estado de São Paulo, explanou “Uma breve história da Síria e do Líbano”. O ponto de partida de sua leitura foram as tratativas, em geral não cumpridas, de França e Reino Unido com os líderes árabes rebeldes à ocupação otomana. Assinados na surdina entre as potências vencedoras da Primeira Grande Guerra, os acordos para divisão dos territórios árabes, antes sob domínio de Istambul, desconsideraram os clamores de um “grande estado nacional árabe” promovendo as conhecidas linhas de fronteira entre os então gerados países: Síria, Líbano, Jordânia, Palestina, Iraque, Kuweit, Arábia Saudita... mas também Egito, Sudão, Líbia, Argélia, Marrocos. Um intrincado sistema de etnias, religiões e aparentados políticos é rompido ao sabor de linhas fictícias, delas derivando nações que nas décadas seguintes se verão na luta pela independência colonial. À meta – naufragada – de uma “Grande Síria” a congregar os atuais Síria, Líbano, Jordânia, Iraque e Palestina (ocupada e Israel), sucede a “miríade” de países com nacionalismo débil e governos incapazes de gerir em interesse de suas populações. Daí resultando a instabilidade, entre aproximação e repulsa, nas relações internacionais das soberanias síria e libanesa. E um elo, para sempre tornado um vislumbre: o da nação árabe que ainda está por se (re)fazer.
A historiadora Arlene Clemesha, professora-doutora da Universidade de São Paulo, retrocedeu o seu foco de abordagem até os árabes anteriores em mais de 2 mil anos ao surgimento da nação islâmica nos idos de 622. Resgatando o que a historiografia dá por certo sobre o mapeamento dos árabes, seja pelas conclusões da arqueologia, seja nas fontes escritas, como a menção a esses povos nos escritos do Velho Testamento, de 700 a.C., a historiadora cruzou “A formação do mundo árabe” (aula do dia 13) com a formação da nação islâmica. Conduzindo os ouvintes ao tempo dinástico dos bizantinos e, posteriormente, do califado omíada, e pontuando o papel do xiismo até a concussão que levaria enfim ao grande califado abássida, o árabe foi destacado pela historiadora por sua mais importante contribuição à humanidade naqueles tempos: a tolerância entre os povos, entenda-se, entre as religiões. Citando a Casa da Sabedoria em Bagdá, que levou à confluência em língua árabe dos mais diversos saberes antigos, e a exemplaridade da liberdade de culto religioso, praticado sob certas condições de discrição social, o Islã terá deixado um legado ainda perceptível nos territórios árabes: mas não por isso isento das implicações hostilizantes dos novos tempos.
A terceira aula, ocorrida em 19 de março, teve como tema “O árabe em busca da própria identidade”. Tarefa “difícil” que, nas palavras do historiador social José Arbex Jr., professor-doutor da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), a aula não tinha a pretensão – descabida – de responder. No tom descontraído característico das intervenções do jornalista, editor especial da revista Caros Amigos e membro do conselho editorial do jornal Brasil de Fato, a dificuldade em tratar a identidade árabe é o paradoxo inerente a essa identidade, forjada que é a partir de um nacionalismo abrupto, decorrente das ações do colonialismo europeu, que pareceriam exógenas ao árabe na perspectiva da formulação de sua identidade. Tal situação exacerba a já delicada questão da “identidade”, qualquer que seja, já, o seu qualificativo. A partir desse ponto, o professor conduziu a aula historiando o nacionalismo árabe, desde o proposto por Alafghani, imbuído por um ideal de retorno ao espírito do Islã primitivo, até o de Alhusri, no final do século XIX, que via no idioma árabe um elemento de base ultranacional, e por Aflaq, que ampliou tal formulação para um nacionalismo de tipo transcendente (não sem laivos avant-nazistas), até o nassirismo (do grande estadista egípcio Gamal Abdelnassir) que formulou uma proposta de unificação dos árabes que por um tempo pareceria exitosa, até que o modelo autoritário de seu governo, marcado por um personalismo messiânico e combinado à repressão, naufragaria de vez a pretensão de unificação, esbarrada enfim na conhecida derrota para Israel na guerra dos seis dias, em 1967.
A quarta e última aula do curso, de 20 de março, esteve a cargo do historiador marxista e professor do Cefet-SP (Centro Federal de Educação Tecnológica de São Paulo), doutor Valério Arcary, que tratou de “Sionismo e imperialismo”. O professor focou a formação do sionismo desde seus primórdios passando pelo encontro de tais reivindicações com os interesses de Washington que viu, no apoio à criação do Estado de Israel, a possibilidade de manter um enclave norte-americano na região do Oriente Próximo, disputada àquela altura pelas promessas de reserva farta de petróleo. A identificação do sionismo a um nacionalismo de tipo exaltado, ideologia já tardia do século XIX, que infunde a ideia de os povos não serem iguais, acaba por legitimar entre os seus formuladores, defensores e apoiadores a existência de um estado teocrático a favor dos judeus, como mais tarde assumirão para si os aiatolás a teocracia islâmica, parecendo serem as duas teocracias do Oriente Médio frutos anacrônicos do século XX, ainda vigentes no XXI, possivelmente fadados à superação de seu modelo ou mesmo ao seu fim. No caso de Israel, os indícios históricos da grande tragédia, a “nakba”, quando metade da população palestina emigra fugindo das perseguições dos cidadãos israelenses plenos (os judeus), não têm sido repetidos: tanto na guerra de 1967, como na Intifada de 1987 os palestinos não se retiraram de suas terras; do mesmo modo como não foram aceitas as condições do tratado de Oslo. Indícios há do desgaste e do declínio da ideologia sionista, tal qual os há quanto ao poder de Washington, que, dentro do sistema europeu de Estados, parece perder a dominância, levando – quem poderá dizer? – a uma nova acomodação de forças dentro desse sistema.
*professor de Letras e Literatura Árabes da Universidade de São Paulo e presidente do Instituto da Cultura Árabe



