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Para ativista, na Palestina aliança cultural é caminho para a paz

Rafic Farah
Rafic Farah
“Só há uma saída para o conflito que já custou a vida e sacrifícios de 4 milhões de palestinos e milhares de judeus: o Governo de Israel ouvir o clamor dos pensadores humanistas de todo o mundo, aceitar as resoluções da ONU (Organização das Nações Unidas), que no passado concedeu um território ao povo judeu, para que lá constituísse seu Estado, ao lado de um Estado palestino, em igualdade de territórios e de direitos....Perdoar um amigo é fácil; perdoar um inimigo é o mais alto estágio civilizatório que pode atingir uma sociedade. Não-somente perdoarem-se: parece utópico falar de uma cooperação, mas quem sabe não caberia a esses dois povos marcar o início de uma nova era na história da humanidade. Tão ricas culturas poderiam juntas, naquele recanto do mundo, fazer surgir uma nova cultura humanística.” O trecho de artigo escrito pelo designer e arquiteto Rafic Farah em 2003, por ocasião da abertura no Brasil da exposição “Israel e Palestina: dois Estados para dois povos”, continua atual. Suas idéias permanecem vivas e encontram eco entre intelectuais, assim como sua busca por disseminá-las. Para ele, o caminho para a paz passa por uma aliança cultural entre os dois povos. Os participantes do Projeto Portas Abertas – que organizou a mostra apresentada no Sesc Pompéia há dois anos, idealizada pelo artista plástico israelense Gershon Knispel – lutam por isso. Farah é um deles.

Nesta entrevista, ele fala sobre o movimento e defende a criação de um único estado democrático israelo-palestino. E, como descendente de sírios, fala da influência da cultura brasileira – com sangue árabe – em seu trabalho.

Icarabe: Fale sobre o Movimento Portas Abertas.
Rafic Farah: Nesse movimento vejo o mais requintado humanismo, que unifica todas as culturas. O humanismo é a grande possibilidade de contaminarmos os dois povos – palestinos e israelenses – e eles verem que existe muito mais vantagem na união, porque todos querem felicidade. Um cidadão que mora em Tel-Aviv (capital de Israel) quer viver em paz sem nenhuma ameaça, assim como um palestino, que quer ter seu território desocupado. O Movimento Portas Abertas quer, para início de conversa, essa desocupação.

Icarabe: Quem participa desse movimento e como fortalecê-lo?
Farah: São intelectuais e artistas. Precisamos de dinheiro para fazer um site, promover mais exposições de artistas árabes e israelenses, tomar iniciativas de ordem cultural para mostrar que os dois povos se entendem e que é possível a paz. Essas iniciativas são muito caras e não encontram repercussão na colônia árabe, pois essa está distante. Já os judeus são mais unidos e podem efetivamente dar apoio material concreto em prol da paz, em prol da retirada dos exércitos dos territórios palestinos.

Icarabe: Você acredita na proposta de dois Estados para dois povos?
Farah: A resolução da ONU era meio a meio ou um estado democrático. Eu não sou nem por ter dois estados, sou por um único, dividido por judeus e palestinos, com as duas culturas ali. Não há uma questão racial entre eles, mas territorial. Os judeus têm que enxergar isso, o que ocorre hoje é um fascismo às avessas, de repente o povo perseguido vira perseguidor.

Icarabe: Como vê a retirada dos colonos de Gaza nesse contexto?
Farah: Agora que os judeus se retiram, depois de tanta dor, é o caso de se perguntarem: por que foram enganados por sucessivos políticos de direita, interesseiros, que os usaram para oprimir um outro povo e, agora que ficou demonstrado que a paz seria impossível sem a devolução desses territórios, arrancam as pessoas do lar em que haviam se apegado? O grave é que as autoridades israelenses já sabiam disso e arriscaram a vida de seu próprio povo. Insisto que se lá houvesse uma democracia os dois povos conviveriam em um único Estado. O mundo assistiu à triste demolição das casas dos colonos. Deixam a terra arrasada. Por quê? O governo israelense, quando incentivou a ocupação dessas terras, expulsou os habitantes nativos. Causou indignação, desespero e ira. Isso não é terror? Ou não induz ao terror? As autoridades israelenses manipularam a sorte de seu próprio povo. Onde está a tradição humanista da cultura judaica? Está onde sempre esteve. Conheci dois grandes humanistas pessoalmente. São realmente grandes de alma. A questão de todos os povos é ouvirem seus pensadores. Eles existem para combater o fanatismo, ponderar, perdoar, compreender o outro. Essa compreensão da dor do outro é o que se esperava de um povo como o judeu – e de outros que passaram por holocaustos similares. Como todas as nações do mundo fizeram com os judeus ao aprovar a criação de Israel. Quem cuidará do drama dos palestinos? O perdão é a única saída para ambos os povos. É preciso pensar nessa utopia, o grande e generoso exemplo, a mudança de todos os paradigmas, de todas as expectativas, alteraria, de verdade, a história da humanidade, para o bem comum. A paz é possível assim.

Icarabe: E como chegar à paz?
Farah: Tem que haver uma aliança de fato entre os dois povos, com cooperação econômica e também cultural. Nesse sentido, a arte é o que melhor pode expressar essa união. Agora, depende de negociação, de ver a parte que sofreu a perda – e, no caso, hoje, os dois lados estão perdendo muito, um não consegue viver com toda a riqueza que tem e o outro está jogado na pobreza. E a Palestina era o lugar mais promissor, mais rico, mais culto, mais ordenado do Oriente Médio, um país lindo antes de 1948 e virou essa catástrofe. Na situação atual, alimenta-se cada vez mais o terrorismo dos desesperados. É preciso acordar. Repito: não vai haver paz sem perdão, os judeus têm que aprender a perdoar, os palestinos estão dispostos a isso desde que lhes devolvam sua terra.

Icarabe: No seu trabalho como designer, há algum tipo de influência árabe?
Farah: Não existe uma influência árabe no meu trabalho, mas brasileira. E eu considero este o maior país árabe do Ocidente. Isso porque, com a colonização portuguesa, os mouros vieram para o Brasil, misturaram-se com o sangue indígena brasileiro e deram no que a cultura brasileira é hoje. Olhe a cara dos nordestinos e desse mineiro que morreu em Londres, o Jean Charles de Menezes. Está claro que a polícia inglesa o confundiu com um árabe e todo brasileiro tem essa cara de árabe. Olhe para o Jorge Amado, o Dorival Caimmy. Isso é quase o povo árabe dentro do nosso sangue. O mouro desapareceu no século XV como instituição, mas como cultura está presente hoje no Brasil. Outra coisa que eu acho interessante na imigração árabe ao nosso país é que eles se misturaram. Quantos e quantos não têm em todos esses rincões, esses sertões com nomes brasileiros e a cultura árabe no cerne de sua alma? É lógico que quando eu era pequeno ouvia muita música árabe, meu pai tinha um conjunto, mas tocava também chorinho.

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