Skip to Content

Entrevistas

Processo de paz entre Israel e Palestina está paralisado

Copyright © 2011 Icarabe.org

O conflito Israel Palestina será um dos temas abordados pelo curso
"Mundo árabe - conjuntura atual e perspectivas", que começa na próxima
quinta-feira, 27 de outubro. Leia aqui a entrevista com o Prof. Salem Nasser, que ministrará aula sobre a questão.

Leia mais

As perspectivas da relação política entre Brasil e Oriente Médio

Copyright © 2011 Icarabe.org

Uma das aulas do curso "Mundo árabe - conjuntura atual e análise de cenários", que começa em 27 de outubro, será dedicada ao tema "Brasil e Oriente Médio, os caminhos da política externa brasileira". Nesta entrevista, a Profa. Cristina Pecequilo (Unifesp) adianta algumas das questões que serão abordadas.

Leia mais

Conhecimento para desconstruir estereótipos ligados ao Islã

Copyright © 2011 Icarabe.org

 

Conhecimento para desconstruir estereótipos ligados ao Islã
O curso Islã: religião e civilização foi realizado no Rio de Janeiro, entre 14 de setembro e 5 de outubro. A atividade, que abordou temas como as diferentes configurações religiosas ligadas ao sunismo, xiismo e sufismo, reformas religiosas e militância política, foi organizada pelo Professor Paulo Hilu da Rocha Pinto, professor do Programa de pós-graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense e coordenador do Núcleo de Estudos do Oriente Médio/UFF.
Leia a seguir uma entrevista com o Professor Paulo Hilu sobre o curso.
1. O curso Islã: religião e civilização apresentou um panorama histórico e também político. De que maneira a iniciativa pode ajudar a desfazer mitos e preconceitos em relação ao Islã?
Sim, cursos como o Islã: religião e civilização, que são abertos à todos os que se interessem pelo assunto, têm um papel importante em permitir que o conhecimento acadêmico sobre o islã. Como o saber acadêmico  procura desconstruir idéias pré-concebidas e representações simplificadoras ou estigmatizantes, isso com certeza permite que visões mais embasadas na realidade social e cultural das comunidades e sociedades muçulmanas possam circular na sociedade.
 
2. Quais são as principais confusões e equívocos em relação à religião islâmica difundidos pelo senso comum e pelos meios de comunicação comerciais?
Sem dúvida o pior estereótipo sobre o islã é a associação generalizadora entre islã e terrorismo ou formas de opressão do sujeito. Não que não existam grupos ou fenômenos sociais que possam ser ligados a essas representações, mas violência e opressão existem em todas as tradições religiosas e não podem ser indiscriminadamente associadas a todos os muçulmanos.
 
3. Como foi a procura pelo curso? Qual é o tipo de  público que demonstrou mais interesse na atividade?
 
A procura foi bastante boa, com muitos inscritos. O público do curso tem uma formação muito variada, de pessoas da universidade a profissionais liberais ou do serviço público
4. A informação de que o Islã é a religião que mais ganha adeptos no mundo é verdadeira?
Na verdade essas afirmações "espetaculares" são meras estimativas, mas pode-se dizer que o islã e o cristianismo (ambos divididos em diversas correntes e grupos) têm tido uma grande expansão nas últimas três décadas
 
5. Recentemente foi exibido em São Paulo um documentário que trata do crescimento da religião islâmica entre jovens brasileiros, especialmente na periferia de grandes centros urbanos. A que se deve esse movimento? 
Esses jovens convertidos seguem o padrão de conversão ao islã que analiso em meu livro, "Islã: religião e civilização", pois são artistas, intelectuais e militantes periferia, que possuem um alto capital cultural ligado a militância política e no Movimento Negro. Assim, não se trata realmente de uma mudança no padrão sociológico da conversão ao islã no Brasil, que geralmente envolve pessoas de classe média e/ou com alto padrão de capital cultural.

O curso Islã: religião e civilização foi realizado no Rio de Janeiro, entre 14 de setembro e 5 de outubro. A atividade foi organizada por Paulo Hilu da Rocha Pinto, professor do Programa de Pós-graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense e coordenador do Núcleo de Estudos do Oriente Médio/UFF.

Leia mais

Na fila da cidadania

Copyright © 2011 Icarabe.org

 

Na fila da cidadania
Ativista pelos direitos da mulher diz que as sauditas cansaram de ser tratadas como ‘crianças irresponsáveis’
02 de outubro de 2011 | 8h 29
Carolina Rossetti
Wajeha Al-Huwaider é uma ativista da emancipação feminina no país com as leis mais restritivas às mulheres do mundo, a Arábia Saudita, onde elas não podem abrir conta em banco, aceitar emprego, assinar contrato de aluguel ou viajar sem a autorização de um homem. 
Mulheres aguardam do lado de fora de um cartório eleitoral em Riad   foto: Fayez Nureldine/AFP
A fundadora da Sociedade de Defesa dos Direitos da Mulher na Arábia Saudita comemorou o ato inédito do rei Abdullah de dar direito de voto às mulheres, mas insiste que é pouco. "Somos tratadas como crianças irresponsáveis. Todos os aspectos da vida são controlados. A exclusão do processo político é apenas o começo dos nossos problemas", disse ela, ao Aliás, por telefone, da cidade de Daharan, onde mora e trabalha na empresa de petróleo Aramco.
Wajeha ficou conhecida internacionalmente quando, em 2008, liderou uma campanha para anular o casamento de uma menina de 8 anos com um homem de 50. Ela fez um vídeo no YouTube denunciando a união, que foi parar na CNN. Em 2008, foi uma das primeiras a postar um vídeo em que aparece dirigindo. Nessa entrevista, ela explica por que o direito de conduzir se tornou a principal bandeira de luta das mulheres no país.
Wajeha foi criada numa família liberal saudita. Sua mãe era a única que deixava a filha andar de bicicleta, o que as amigas não podiam fazer, pois poderia "lhes custar a virgindade". Aos 7 anos, teve as pernas amarradas por uma professora e apanhou com um pau porque fugia para jogar futebol com os meninos. "Sempre fui a diferente, e continuo." Divorciou-se assim que o marido veio com a conversa de que queria uma segunda esposa. Há anos não usa preto nem cobre o rosto. "Sou a única que veste rosa por aqui. É para mostrar às sauditas que nossa vida pode ter muito mais cor".
Como repercutiu na Arábia Saudita o inédito direito de voto para as mulheres?
Foi um discurso bem feito pelo rei Abdullah e a notícia foi bem recebida por nós, mas é só uma promessa para 2015, o que é frustrante. Não sabemos nem se será cumprida. De toda forma, eleições na Arábia Saudita não são grande coisa, porque metade dos cargos é apontada pelo rei. Os conselheiros não têm poder de fato, não podem mudar leis ou sugerir políticas, apenas escrevem recomendações ao rei. Mas é assim que funciona a política na Arábia Saudita. O país não é do povo, é de uns poucos homens que nunca foram eleitos. O sufrágio universal é uma conquista importante, mas apenas o começo. Estranhei terem ressuscitado o caso de Shaima Ghassaniya dois dias depois do anúncio do voto. Pegou mal e o rei teve que intervir cancelando a sentença das chibatadas, o que, aliás, não é uma pena comum aqui.
Por que o direito de dirigir parece ser a principal causa de mobilização das sauditas?
Porque não há nenhuma lei que diga que não podemos dirigir, só o que nos impede é a tradição. Há uma fatwa, um pronunciamento religioso, que diz que mulheres não podem conduzir, mas em tese ela pode ou não ser seguida, quem decide é a família. Em 1991, 47 mulheres fizeram um protesto em Riad que repercutiu muito e durante um curto período elas puderam dirigir. No interior podemos dirigir, mas na cidade grande, não. Dirigir aqui é tão importante porque, sem isso, não podemos ir para a escola, para o trabalho, fazer compras. Nossas cidades são construídas de modo que o carro é muito necessário. Não temos um transporte público desenvolvido, então não podemos depender dos �?nibus, poucos e caindo aos pedaços. Resta-nos contratar motoristas, geralmente imigrantes da Índia, Sri Lanka e Indonésia dos quais nada sabemos. Somos obrigadas a aceitá-los em casa, conduzindo nossa vida. Eles exigem salários altos, moradia e seguro-saúde, tudo muito caro, p ois sabem que se forem embora a vida da mulher fica suspensa. Muitas têm que deixar o emprego porque não podem manter um motorista, ou pedir licença sem remuneração até conseguir outro. Somos obrigadas a depender de estranhos. Dirigir virou uma bandeira nossa porque, de todos os países do mundo, só na Arábia Saudita existe essa proibição.
Há protestos semelhantes em relação a outros direitos negados?
A "lei do guardião" é ainda pior porque não é só tradição, é uma medida oficial difícil de ser mudada. A saudita precisa ter um homem a tiracolo para tudo na vida. Sem um acompanhante, seja marido, filho ou pai, ela não pode conseguir emprego, ser aceita na escola, receber tratamento médico - nem em caso de emergência - viajar, alugar casa, comprar carro, abrir conta em banco, começar um negócio, nada. Todos os aspectos da nossa vida são controlados. Queremos ser cidadãs plenas, vistas como pessoas maduras, como os homens, mas nos tratam como crianças irresponsáveis. Nos últimos meses, mulheres têm protestado por mais emprego. Às vezes, grupos de jovens vão aos reitores de universidades exigir que sejam aceitas. Outras protestam pela libertação de prisioneiros, geralmente maridos ou filhos. Mulheres até vão à rua defender causas como essas, mas não para refutar a lei da guarda masculina.
O NYT informou que 58% dos universitários sauditas são mulheres. Qual é a participação delas no mercado de trabalho?
Mais mulheres do que homens têm diploma, especialmente bacharelado, na Arábia Saudita, mas o país tem a maior porcentagem de mulheres desempregadas do mundo. Alguns cargos são estritamente para homens, então elas nem podem se candidatar. E as empresas preferem contratar homens porque não têm que pagar tantos benefícios relacionados à maternidade. As famílias também não gostam de ver as filhas ou esposas trabalhando com homens e pressionam para que fiquem em casa.
De que maneira a Primavera Árabe está repercutindo em seu país?
Todos os amigos dos reis sauditas estão caindo e eles estão preocupados. Por isso mandaram forças militares ao Bahrein para tentar abafar o levante. Quando o presidente egípcio estava caindo, o rei Abdullah voltou do exterior, onde passava por tratamento médico, e tentou apaziguar os ânimos dos sauditas com dinheiro. Aumentou os salários dos funcionários públicos, especialmente da indústria do petróleo. E US$ 130 bilhões foram liberados para gastos públicos numa estratégia de calar o povo e ganhar tempo. Mas as pessoas estão se mobilizando no Facebook e criticando a realeza, pressionando para que ela reveja leis e dê mais oportunidades para os pobres melhorarem de vida. A imigração, atrelada ao desemprego, é motivo de grande insatisfação por aqui. Enquanto 8 milhões de trabalhadores na Arábia Saudita são estrangeiros, 28% dos homens não tem emprego porque é mais barato contratar um filipino que um saudita. Nosso país é de jovens, 60% da populaç ão tem menos de 25 anos, porque a taxa de natalidade é alta. Somo famílias grandes. Esses jovens precisam de escola, emprego, casa para começar a família. Hoje 80% dos sauditas vivem de aluguel pois não conseguem comprar um imóvel.
O rei Abdullah já tem 88 anos. Seu sucessor, o príncipe Sultan, de 87, está doente. O seguinte na linhagem é o príncipe Nayef, o mais conservador dos três. Que esperar do futuro do governo saudita?
O rei diz que vai viver mais 20 ou 30 anos, mas isso é sonho dele. É difícil prever qualquer coisa quando se trata da família real, eles são dissimulados. Quase ninguém houve mais falar do príncipe Sultan, internado há mais de três meses, mas a família toca o dia a dia como se tudo estivesse bem, business as usual. Muita gente está preocupada com Nayef e acha que teremos mais restrições quando ele assumir. Imagino que no começo ele vá fazer concessões e dar sinais de abertura. É assim que agem todos os reis sauditas no começo do reinado, dão presentes ao povo porque querem conquistar sua simpatia. Nayef comanda o Ministério do Interior, todas as polícias e forças de segurança estão sob seu comando e ele é da ala mais conservadora do governo.
Em um artigo, você diz que depois dos ataques nos EUA em 2001 o governo saudita ficou envergonhado do papel de seus cidadãos no atentado e, para melhorar a imagem do país, liberalizou um pouco. De que forma?
Tivemos avanços. Os jornais estão cheios de denúncias de corrupção, a imprensa pode criticar mais os ministros e questionar tradições. Isso era impensável há dez anos. Surgiram as primeiras apresentadoras de TV, âncoras de programas de política, mostrando o rosto. Antes, mulheres só podiam escrever para jornais e suas fotos não eram publicadas. Em termos de emprego, algumas ocupações antes restritas aos homens começam a ser abertas às mulheres. E as regras para a emissão de fatwas mudou. Antes, qualquer sacerdote podia emitir uma fatwa. Agora, um conselho de teólogos precisa examiná-las. Esse é um avanço menor, admito. Mas nesta década tivemos a primeira mulher ministra, Norah al-Faiz, da Educação. Mulheres também podem, em alguns casos, morar num apartamento alugado sem a permissão de um homem. Isso é muito importante, especialmente para vítimas de violência doméstica. O rei criou a universidade Rei Abdullah, a primeira e única onde mulhere s e homens podem estudar e trabalhar juntos. Portanto, algumas mudanças sutis estão ocorrendo, mas muito ainda precisa mudar.
O processo de divórcio foi simplificado?
A Corte Suprema já fez o pedido ao rei para revisar a lei do divórcio, mas até agora nada foi feito. A mulher precisa da autorização do pai para se separar. Já para o homem basta dizer "eu me divorcio de você" e pronto. Ou nem isso: pode mandar outra pessoa avisar a mulher da separação. Quando elas se divorciam, quase sempre perdem a guarda dos filhos e a casa. O homem pode ter até quatro esposas, sem precondições, mesmo se for pobre e mal conseguir se sustentar. Elas são forçadas a uma vida de miséria. Mulheres não são identificadas quando vão ao tribunal, cobertas pelo véu. Quem valida sua identidade é o acompanhante e por isso acontecem muitos casos de fraude. Por exemplo, uma filha acaba de receber a herança do pai. O irmão leva uma mulher qualquer ao tribunal, diz que é a irmã e que ela está doando todo o dinheiro a ele. Os juízes não conferem a identidade da mulher porque é considerado vergonhoso ver o rosto de uma desconhecida, e os tribu nais não contratam funcionárias para conferir quem está debaixo daquele pano.
Você foi muito ativa para anular o casamento de uma menina de 8 anos com um homem de 50. Casos como esses são comuns?
São cada vez mais raros. Certamente acontecem no interior e em comunidades mais religiosas, mas não ficamos sabendo. Estamos militando pela a aprovação de uma lei que fixe uma idade mínima para o casamento. Nesse caso que você mencionou, a mãe da garota foi crucial para conseguir o divórcio da filha. Ela batalhou muito, foi aos jornais e contou a história. Foi assim que nós, da Sociedade de Defesa dos Direitos da Mulher, ficamos sabemos e pudemos ajudar, promovendo uma campanha internacional. Essa mãe tinha acabado de se divorciar. É comum que casos de casamento de crianças estejam associados ao divórcio dos pais. O homem fica com a guarda das crianças e se desfaz das filhas em uniões arranjadas. Alguns até as vendem.
É forte a participação das mulheres no movimento pela emancipação feminina?
Está melhorando. Antes, quando eu conversava com as mulheres sobre nossos direitos elas diziam que eu estava errada, a vida delas era confortável, estava tudo ok. Agora, a consciência de que estamos sendo diminuídas, desumanizadas e exploradas é maior. O melhor nível de educação das mulheres e a internet ajudaram muito. Elas estão por aí, organizando-se pelo Facebook, esperando a hora de serem ouvidas.
O véu que cobre o rosto da mulher é obrigatório em todas as ocasiões?
Nas escolas e nas repartições públicas, sim. Mas nos shoppings ou na rua, não. Antes, há talvez uns dez anos, era proibido por lei andar sem véu. Hoje são as famílias que decidem. Como os sauditas são conservadores, quase todas cobrem o rosto. Tomo a mim mesma como medida e digo: elas não estão felizes. Este é um dos países mais quentes do mundo, 38°C todo dia. Roupa preta não faz o menor sentido. Os homens só andam de branco, o que é mais adequado ao clima. A maioria das mulheres é forçada a se cobrir. Minha irmã é uma delas, seu marido exige. Há anos eu não uso mais preto ou cubro o rosto. Quando vou ao shopping, sou a única mulher de rosa ou branco. Sempre fui a diferente e continuo assim. Quero mostrar às mulheres que nossa vida pode ter muito mais cor.

Ativista pelos direitos da mulher diz que as sauditas cansaram de ser tratadas como ‘crianças irresponsáveis’.

Leia mais

Curso de especialização em danças orientais reponde demanda por profissionalização

Copyright © 2011 Icarabe.org

 

A pesquisadora e dançarina Cristina Antoniadis tem larga experiência na performance e no ensino das danças orientais. Em 2012, Cristina coordenará um curso de especialização voltado para a profissionalizar quem já pratica danças orientais.
A atividade, que tem apoio do ICArabe, acontecerá ao longo de cinco meses, no Pandora Espaço de Danças. 
Na entrevista a seguir, Cristina fala sobre o aumento da procura por cursos de danças orientais no Brasil e no mundo, e também sobre a demanda por profissionalização que este fenômeno acarreta.
Qual será o conteúdo do curso de especialização em danças orientais? Além de aulas práticas, haverá momentos dedicados ao estudo teórico do assunto?
O curso de especialização será muito rico em conteúdo, contendo uma grande parte da carga horária destinada ao estudo teórico dos diversos assuntos e questões que as danças árabes englobam. O curso será dividido em três módulos de cinco meses de duração, sendo que o primeiro módulo será praticamente teórico abordando não somente a teoria relacionada á música e a dança, mas também aspectos históricos, geográficos e culturais.
O curso será profissionalizante. Qual é a importância de profissionalizar a prática das danças orientais no Brasil?
O número de pessoas interessadas nestas danças tem aumentado de forma considerável nos últimos anos, e isso é um fenômeno mundial. Devido a este fato é crescente também o número de professores e bailarinos que têm esta atividade como profissão. Entretanto nem todos têm acesso às informações necessárias para a prática e difusão destas danças de forma adequada. Saber executar os passos de determinada dança não é o suficiente, ainda mais a dança oriental árabe que carrega consigo não somente os movimentos, mas também inúmeros aspectos culturais, musicais e históricos relacionados, sem contar as lesões corporais que pode causar se for praticada de forma inapropriada. Por isso se faz necessário um curso que permita aos interessados em ter esta atividade como profissão um embasamento mais profundo do significado, contexto e tradições na qual estão inseridas. Outro aspecto que o curso irá abordar é o da prática da profissão de forma legalizada, ou seja, como o profissional pode se respaldar na lei para ter acesso aos direitos de qualquer trabalhador, bem como também assuntos relacionados à administração, marketing, direito contratual etc.
Existe uma estimativa de quantas pessoas praticam danças orientais no Brasil ou em São Paulo? Qual a porcentagem delas pode ser considerada profissional?
Infelizmente não existe nenhum estudo sobre o número de praticantes de danças orientais árabes e profissionais desta área no Brasil ou em São Paulo, por isso não temos esta estimativa. Entretanto, sabemos que o número de escolas especializadas e academias de danças é crescente. Para se ter uma idéia, o maior festival de danças orientais árabes da América Latina ocorre em São Paulo, uma vez ao ano, e recebe por volta de 10 mil pessoas. São três dias de festival, nos quais são apresentados mais de 400 números de danças orientais. O festival acontece no mês de abril e as inscrições esgotam-se já em janeiro. Sem contar os festivais menores que ocorrem todos os meses do ano. Não podemos esquecer também das inúmeras festas árabes, noites temáticas e eventos nos quais os organizadores sempre contam com as danças orientais. Tudo isso nos permite ter uma idéia da dimensão que a dança esta tomando, o que é maravilhoso, desde que executada e transmitida de forma adequada.
De que forma a prática da dança de forma amadora e sem o conhecimento teórico prejudica a difusão da cultura oriental?
De forma avassaladora, criando estereótipos pejorativos e depreciando uma arte tão bonita e rica. Devido a este amadorismo a dança oriental ainda é vítima de muitos preconceitos, inclusive dos próprios árabes e descendentes, que acabam se distanciando da própria cultura, e isto é muito triste.
O Pandora Espaço de Danças tem se firmado como espaço de difusão sério e comprometido das danças árabes e orientais. Existe muita procura por esse tipo de curso e qual é o público mais frequente?
Na verdade, o Pandora é especializado em dança e música do Oriente Médio. A procura é grande. A dança oriental árabe clássica, a chamada “dança do ventre”, atrai mulheres de todas as idades, etnias e tipos físicos. Especificamente no Pandora o público é bastante interessado também nos aspectos culturais, musicais e históricos, o que me deixa muito feliz. A dança oriental clássica é um bálsamo para as mulheres de hoje, pois possibilita que elas entrem em contato com sua feminilidade, eleva a auto-estima, não exige padrões físicos e estéticos, e é um excelente e completíssimo exercício físico (queima em média 300 calorias por hora) ao mesmo tempo em que proporciona prazer. Por isso o público é muito variado. Existem alunas que querem apenas relaxar, outras que não gostam de academia e querem um bom exercício físico, algumas descendentes de árabes que querem resgatar suas origens, e existem também as que querem se apresentar em publico e/ou tornar-se profissionais.
Quais danças podem ser consideradas especificamente árabes e qual a diferença delas para as danças orientais como um todo?
Existem muitas danças que são de origem árabe. O mundo arabizado tem uma extensão geográfica muito grande e engloba diversos países, por isso temos danças que são comuns entre os árabes e outras não. O dabke, por exemplo, é uma dança folclórica muito típica do Líbano, Síria, Jordânia, Palestina e encontrada também de uma forma diferenciada no Iraque e até mesmo na Grécia, mas não é dançada no Egito, Tunísia, Marrocos. A dança khaligee é bem específica do Golfo Pérsico, e por aí vai. Já a dança oriental árabe clássica, raks el shark, é uma dança em comum dos muitos povos árabes e vai além, pois também é encontrada na Turquia, Grécia, Armênia, Irã e outros. Quando usamos o termo dança oriental, na verdade estamos traduzindo do árabe “raks el shark”, o que pode confundir com as danças do extremo oriente, ou indianas, mas estas são outras modalidades de dança, por isso prefiro usar a expressão dança oriental árabe.
Quais serão os períodos de realização dos módulos do curso?
O curso terá três módulos de cinco meses cada, um domingo por mês com carga horária de seis horas. O curso inteiro totalizará 90 horas aula. O primeiro módulo tem início previsto para fevereiro de 2012. Os módulos serão divididos da seguinte forma:
Módulo 1 – “SABER” Conceitos de Base
Temas - História geral, história da dança, história da música árabe, estrutura da música árabe, ritmos, anatomia e fisiologia, princípios do ballet clássico, aspectos culturais e essenciais que diferenciam a dança oriental da ocidental.
Módulo 2 – “SENTIR” Dança Oriental, Folclores e Particularidades
Temas - Dança Baladi, Popular, “Raksa”, Dança Cênica, Instrumentos de cena, Folclores (dabke, raks al assaya, zaar, khaligee, jarro), Técnicas corporais avançadas, Gestuais e significados, dança coreografada e dança improvisada.
Módulo 3 – “FAZER” Profissionalização e Diferencial
Metodologia de ensino para níveis diferenciados de aprendizagem, preparação para cena, palco e luz, como montar um show, a importância e preparação para obter o DRT, conceitos básicos de administração, marketing e direito, ética profissional, leitura musical avançada, desenvolvimento do estilo pessoal e preparação para a música ao vivo.
O público alvo do curso são pessoas praticantes de danças orientais que já estejam em nível avançado e que queiram se profissionalizar, bem como professores que gostariam de aprofundar e reciclar seu conhecimento no assunto. As vagas serão bem limitadas de modo a não prejudicar a qualidade do aprendizado. O corpo docente é altamente selecionado. Os professores confirmados são Cláudia Parolin (bailarina), Cláudio Kairouz (músico), Cristina Antoniadis (pesquisadora e dançarina), Fadua Chuffi (bailarina), Leandra Yunis (historiadora e dançarina), Hanna Hadara (bailarina), Márcia Dib (pesquisadora e dançarina), Sami Bordokan (músico), William Bordokan (músico) entre outros.

A pesquisadora e dançarina Cristina Antoniadis tem larga experiência na performance e no ensino das danças orientais. Em 2012, coordenará um curso de especialização voltado para a profissionalizar quem já tem prática na área. A atividade, que tem apoio do ICArabe, acontece ao longo de cinco meses, no Pandora Espaço de Danças. 

Leia mais

“Dançar é natural, instintivo, universal”

Copyright © 2011 Icarabe.org

Leandra Yunis, dançarina e historiadora das danças orientais, se dedica à pesquisa de aspectos pouco abordados quando o assunto é dança. Coordenadora do Núcleo de Poesia e Dança do ICArabe, é responsável pela organização dos Diwans. Nesta entrevista, fala sobre a dança em geral e as danças orientais especificamente, suas referências teóricas e a importância da valorização da dança fora do espaço cênico.

Leia mais

"Hierarquia dos povos", de Sâ’id Alandalusî, ganha tradução inédita em português

Copyright © 2011 Icarabe.org

 

"Hierarquia dos povos", de Sâ’id Alandalusî, ganha tradução em português
Safa Jubran, professora de Língua Árabe na Universidade de São Paulo, acaba de publicar a tradução em português do livro "Hierarquia dos povos", de Sâ’id Alandalusî (Amaral Gurgel Editorial). O lançamento aconteceu na última segunda-feira, 29 de agosto, na Livraria da Vila, em São Paulo.
Nascido em Almeria, em 1029, onde iniciou seus estudos, completados mais adiante em Córdoba e em Toledo, o autor é conhecido como Sâid Alqurtubî (o cordobês), Sâid Attulaytulî (o toledano) e, entre os orientais, como Sâid Alandalusî, o espanhol.
Embora dominasse várias áreas do saber, destacou-se como historiador das ciências. As biografias elaboradas por ele, as quais resultaram neste livro, representam um instrumento imprescindível para o estudo da ciência antiga e medieval. 
Este livro é uma das quatro obras do autor e a única cujo texto sobreviveu; dele sabe-se da existência dos outros três. Trata-se de uma das primeiras histórias das ciências em língua árabe. 
Leia abaixo uma entrevista com Safa Jubran sobre o livro e seu processo de tradução.
Esta é a primeira tradução do livro "Hierarquia dos Povos" para o português?
Para o português, sim. Há uma tradução francesa, uma inglesa e uma espanhola. Na Introdução, analiso rapidamente cada uma delas, mencionando suas qualidades e falhas.
Como foi realizado o processo de tradução? Foi utilizado somente o texto original em árabe ou também traduções em outros idiomas?
Usei três textos árabes, nenhum deles é confiável, isto é, nenhum deles teve uma boa edição. Aliás, mesmo sendo reconhecidamente um dos textos clássicos mais importantes, não mereceu até agora nenhuma edição boa. Usei para o cotejo também um manuscrito da British Library numa datação posterior. Exatamente, estes três textos, mais as três traduções foram trabalhadas no livro; mas para a tradução, parti de um dos textos árabes, que julguei menos problemático. Durante a tradução, quando o texto apresentava problemas ou equívocos, eu cotejava com os outros textos e outras traduções e citava cada uma em nota de roda-pé.
De que forma o texto original foi preservado? Há alguma explicação sobre o fato de somente esta obra de autoria de Sâ’id Alandalusî ter sobrevivido?
Existem várias copias manuscritas deste livro, de épocas diferentes, em várias bibliotecas e coleções pessoais, algumas são acessíveis, outras não. Não se sabe por que este livro sobreviveu e os outros não, existem hipóteses e conjunturas, que não vêm ao caso agora pelos detalhes que podem apresentar. Mas é interessante saber deste livro que além de suas obras que não sobreviveram, sabemos de outras obras por outras pessoas que também não chegaram até nós, e aqui está um dos aspectos que constitui a importância desta obra.
Qual a importância desta tradução para o resgate e memória da cultura árabe e sua história?
Antes de tudo, é um obra de referência importantíssima da história das ciências produzidas até então (séc. XI), uma vez que resgata as produções dos antigos, os tipos de conhecimento cultivado por um dado povo. Trata-se na verdade de uma história universal, não só do povo árabe, que, neste livro, é contemplado por uma capítulo só.
A estrutura do livro que é interessante e original. O autor diz que os povos originais do mundo habitado eram sete: os persas, os caldeus, os gregos, os coptas, os turcos (várias etnias), os indianos e os chineses. Estes, segundo o autor, se dispersaram, suas línguas se ramificaram e também suas religiões, mas que, apesar das diferenças marcadas, podem ser divididos em duas classes: uma que se interessava pela ciência e outra não. Àquela classe que produziu e propagou conhecimento, o autor dedica o livro, elaborando um capítulo a cada um de seus constituintes, a saber: os indianos, os persas, os caldeus,os gregos, os bizantinos, os egípcios, os árabes e os hebreus. Sendo assim, os árabes mereceram um capítulo dentro desta pequena história das ciências. Como disse, a importância do livro não se restringe a cultura árabe mas a cultura universal.

Safa Jubran, professora de Língua Árabe na Universidade de São Paulo, acaba de publicar a tradução em português do livro "Hierarquia dos povos", de Sâ’id Alandalusî, obra imprescindível para o estudo da ciência antiga e medieval. 

Leia mais

Dicionário Árabe-Português é resultado de 40 anos de trabalho

Copyright © 2011 Icarabe.org

 

Dicionário Árabe-Português é resultado de 40 anos de trabalho 
O Monsenhor Alphonse Nagib Sabbagh é um dos maiores estudiosos do árabe do país. Nascido no Líbano, veio para o Brasil em 1957. Criador do Setor de Estudos Árabes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, dedicou sua vida à divulgação do idioma e da cultura de seu povo. No início deste ano, lançou o Dicionário Árabe-Português pela editora Almadena, obra a qual se dedicou por quarenta anos. 
Na entrevista abaixo, Monsenhor Alphonse Nagib falou ao ICArabe sobre a importância do idioma árabe, falado por mais de 300 milhões de pessoas, entre outros temas. 
O senhor lançou recentemente o Dicionário Árabe-Português. A qual público se dirige a obra e qual sua importância para o estudo do idioma árabe por falantes de português?
O Dicionário Árabe-Português, em primeiro lugar, se dirige aos leitores das línguas árabe e portuguesa, sem distinção.  Naturalmente, o interesse da cada grupo é diferente, de acordo com as suas necessidades.
Além do mais, a língua árabe tem fundamental importância na formação do léxico português e ocupa, também, lugar de destaque como uma língua de cultura, pela qual foram e são veiculados conhecimentos de toda a ordem.  
Deve-se considerar, também, o grande número de falantes, mais de 300 milhões, e aqueles que usam a língua do Profeta Muhammad, como instrumento litúrgico, cerca de 1 bilhão e 300 milhões de muçulmanos.  A partir desse ponto de vista, os árabes são ampla minoria entre os usuários de seu idioma natal.
Como foi o processo de produção do Dicionário? Quanto tempo o senhor levou neste trabalho? Houve colaborações de outros estudiosos e pesquisadores do idioma árabe?
O Dicionário é uma obra que nasceu naturalmente, decorrente da necessidade de apoio didático para o ensino do árabe na UFRJ.  O trabalho durou 40 anos e contou com o apoio institucional da UFRJ e com a colaboração de professores e de alunos do Setor de Estudos Árabes.  O trabalho lexicográfico não tem fim e nunca é completo. São necessários ajustes, atualizações e, por isso, é importante sua vinculação à uma instituição oficial.
O senhor possui larga experiência acadêmica e é criador do Setor de Estudos Árabes da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Como avalia a forma com que a cultura e o idioma árabes têm sido divulgados no Brasil? Essa divulgação ainda é restrita ao ambiente acadêmico ou tem extrapolado para outros setores da sociedade?
No mundo contemporâneo, cada vez mais, impõe-se a necessidade do conhecimento do outro.  Os países árabes estão em evidência e presentes nos noticiários diários.  O brasileiro, em geral, tem curiosidade em se aprofundar em questões internacionais, que ocupam as manchetes.  Há, também, uma política de aproximação entre os governos dos países da América do Sul e dos países árabes, em busca de mercados alternativos.  Creio, assim, que há vários motivos para o aumento crescente pelo interesse da cultura árabe no Brasil.
Qual a importância da existência de editoras, institutos e demais instituições voltadas à promoção da cultura árabe no Brasil? 
Eu,que cheguei ao Brasil em 17 de novembro de 1957, em missão religiosa, recebi do Patriarca Melquita Maximus Saiegh a incumbência de divulgar a língua árabe no País.  Fiz o que me foi possível.  Vejo com muita alegria os avanços dos Centros de Estudos Árabes da USP e da UFRJ, produzindo trabalhos de qualidade, que envaidecem qualquer imigrante árabe. 
Com satisfação, constato segmentos editoriais voltados para a publicação da produção acadêmica sobre a língua, a literatura, a cultura árabe e árabe-brasileira. Parabenizo, também, o ICArabe por sua capacidade de difundir a cultura árabe entre os brasileiros, sem partidarismo inócuos, sendo porta-voz dos vários segmentos, que compõem a sociedade árabe no Brasil, possibilitando o diálogo livre, democrático e o debate de ideias.
Gostaria,por fim, de informar, aos interessados na aquisição do Dicionário Árabe-Português, que poderão adquiri-lo, com significativo desconto, pelo site:  www.almadenaeditora.com

O Monsenhor Alphonse Nagib Sabbagh é um dos maiores estudiosos do árabe do país. Nascido no Líbano, veio para o Brasil em 1957. Criador do Setor de Estudos Árabes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, dedicou sua vida à divulgação do idioma e da cultura de seu povo. 

Leia mais

“Os manos de Alá” traz histórias de jovens brasileiros que optaram pelo Islã

Copyright © 2011 Icarabe.org

 

“Os manos de Alá” traz histórias de jovens brasileiros que optaram pelo Islã
Atualmente, o islamismo é a religião que mais cresce no mundo. No Brasil, sua expansão tem acontecido principalmente nas periferias das grandes cidades, por meio de homens e mulheres jovens, boa parte deles negros. É dessa constatação que parte o documentário “Os manos de Alá”, dirigido pelo jornalista e documentarista Luiz Carlos Lucena. 
Em aproximadamente uma hora, o filme apresenta depoimentos de brasileiros que se tornaram muçulmanos pelas mais diversas razões. Alguns se aproximaram da religião por curiosidade, outros foram apresentados a ela por parentes. Em comum está a busca por paz de espírito e demais respostas encontradas por estes jovens no Corão, livro sagrado do Islã.
Lucena colheu os depoimentos que compõem o documentário em mesquitas espalhadas pela cidade de São Paulo e Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. No começo do trabalho, foi recebido com desconfiança pelas pessoas que haviam tido experiências negativas em entrevistas para a imprensa comercial. Em São Paulo, o diretor visitou mesquitas na Praça da República, região central da cidade e no Brás. 
São esses depoimentos que dão o tom do filme. O diretor optou por deixar os entrevistados livres para expressar suas crenças e opiniões, não recorrendo a recursos como narração ou mesmo procurando especialistas que fizessem análises acadêmicas do assunto. 
Islã e hip hop
Um dos aspectos que mais chama a atenção no filme é a relação que diversos entrevistados estabelecem entre a religião e o hip hop, expressão artística da cultura negra que se apresenta em elementos como dança, música, grafite e poesia. Segundo Lucena, essa aproximação entre dois mundos aparentemente opostos se deu a partir da busca pelo conhecimento, que é comum tanto ao hip hop e à religião islâmica. “Muitos artistas ligados ao rap são muçulmanos, especialmente nos Estados Unidos, e esses jovens começam a ouvir suas músicas, que contêm muitos conceitos ligados ao islamismo”, explica. Um exemplo é o DJ Afrika Bambaataa, figura de referência do hip hop e muçulmano. 
A ligação entre o Islã e o movimento negro inclusive não é recente. Nos Estados Unidos, grandes ícones da luta por direitos civis e antirracista adotaram o Islã como religião, como Malcolm X e o boxeador Muhammad Ali. No Brasil, um episódio pouco conhecido é a Revolta dos Malês, movimento insurgente ocorrido na Bahia em 1835, capitaneado por escravos de religião islâmica que buscavam sua libertação.
Mulheres
Outro elemento interessante é a grande quantidade de mulheres que se tornam muçulmanas. Segundo estatísticas apresentadas por alguns entrevistados, entre dez pessoas que se convertem ao Islã, sete são mulheres. No documentário, diversas entrevistadas declaram que o estigma que cerca a religião muçulmana em relação ao papel subalterno das mulheres não corresponde à realidade. Os depoimentos ressaltam também a tolerância que existe em relação ao uso do véu. 
Leia a seguir a entrevista completa com Luiz Carlos Lucena, diretor do filme “Os manos de Alá”
Como você se interessou pelo tema do filme “Os manos de Alá”? 
Comecei a ler sobre o tema aos onze anos, ainda no colégio. O Corão sempre despertou minha curiosidade, as palavras em árabe também. Quando li uma reportagem sobre o crescimento do islamismo na periferia de São Paulo, achei que era um tema interessante para um documentário. Inscrevi o projeto em um edital do Ministério da Cultura, que financiaria documentários em rádio e fui aprovado. Aí aproveitei e fiz também o filme. O programa de rádio ganhou menção honrosa do Ministério.
O crescimento da religião islâmica no Brasil está restrito aos estados de São Paulo e Rio Grande do Sul, que são os que aparecem no filme?
Não somente. Há grupos em Curitiba, na Paraíba e em outros estados do Nordeste. No Rio Grande do Sul há uma grande produção de comida para o mercado islâmico e também muitas pessoas que praticam a religião.
Apesar do grande número de mulheres que optam pela religião islâmica, o filme mostra apenas homens nos espaços das mesquitas e rezando. Por que?
Os espaços para as rezas são diferentes para homens e mulheres, eles ficam separados para que as mulheres possam ter seus momentos para rezar. Eu não quis invadir esses espaços para filmar. 
Boa parte dos entrevistados coloca que a religião islâmica é estigmatizada, mas declara nunca ter sofrido intolerância individualmente. Por que?
Acredito que a imprensa não agride pessoalmente. O que existe é mais curiosidade em relação à religião islâmica e não intolerância. O estigma existe em nível mundial, criado pela mídia, sobretudo americana.
E a que você credita essa relação estreita entre o islamismo e o hip hop que existe nas periferias brasileiras?
O hip hop tem forte conteúdo político, é uma expressão do movimento negro. O rap é música americana, politizada. Esses jovens começam a ouvir esse tipo de música e fazem a relação. O DJ Afrika Bambaataa, que é uma das referências do hip hop traz conceitos islâmicos em sua obra. O Islã prega a busca pelo conhecimento e o hip hop também.
Como será a distribuição do filme “Os manos de Alá”? Onde ele poderá ser assistido?
O filme será exibido em centros culturais, universidades e festivais. Estou inscrevendo em diversos festivais e a partir dos resultados pode ser que haja uma exibição no circuito comercial. 

Atualmente, o islamismo é a religião que mais cresce no mundo. No Brasil, sua expansão tem acontecido principalmente nas periferias das grandes cidades, por meio de homens e mulheres jovens, boa parte deles negros.

Leia mais

Al Nakba em quadrinhos: o cotidiano na Palestina ocupada

Copyright © 2011 Icarabe.org

 

Al Nakba em quadrinhos: O cotidiano na Palestina ocupada pelo cartunista Joe Sacco
Entrevista exclusiva a Marcia Camargos 
Elogiado por Edward Said, que definiu sua obra como um ato de profunda generosidade em relação às vítimas da história contemporânea, Joe Sacco esteve presente na Flip 2011 para conversar sobre sua bem sucedida série de livros em quadrinhos retratando o cotidiano das populações submetidas à situação de guerras e conflitos. Ao contrário de alguns colegas de ego inflado e postura arrogante, que se recusaram a responder algumas perguntas do mediador ou da plateia, o maltês que atualmente reside em Seattle (EUA),  esbanjou simpatia, atendendo com a maior atenção, disponibilidade e uma paciência invejável as levas de fãs, repórteres e curiosos à sua volta. Todos concordaram que ele foi uma das figuras mais cativantes da Festa Literária de Paraty. 
Também convidada para o debate Marco Zero Modernista, que abri com uma homenagem às mulheres da Primavera Árabe, tive o privilégio de conviver com ele durante os quatro dias do evento. No sábado, entre sua palestra na Tenda dos Autores, um encontro com jovens na Flipzona e a interminável fila de autógrafos, que se estendeu por mais de duas horas, Joe Sacco concedeu uma entrevista exclusiva para o newsletter do ICArabe. Falou sobre seu processo de criação, as escolhas profissionais, os desafios de equilibrar, no trabalho de pesquisa, as memórias individuais e a realidade factual, sobre os possíveis desdobramentos das recentes revoltas no Oriente Médio e a questão de um ou dois Estados na Palestina ocupada. Sem se esquivar de nenhuma pergunta, por mais polêmica que fosse, este dublê de escritor e militante da causa dos oprimidos, de repórter e cartunista, declarou que a subjetividade é inerente ao ofício e enriquece, em lugar de ofuscar ou obscurecer a veracidade dos acontecimentos. 
Em tempo: Joe Sacco tem seis livros publicados no Brasil. Na Flip ele estava autografando Palestina (Conrad) e o recente Notas sobre Gaza (Companhia das Letras). 
O que o levou a optar pelos mais pobres, pelo explorados, pelos mais agredidos, pelos humildes da terra? 
De fato, a maior parte do meu trabalho é dedicada às vítimas dos conflitos na Palestina e nos Bálcãs. Fiz esta escolha porque, em geral, estes são os sem voz, os menos ouvidos. Faço porque creio que tenho que fazer este esforço, desenhar o que vejo, manter este compromisso. Tenho a compulsão de visitar estes lugares e conversar com as pessoas para descobrir o que está acontecendo e, como cartunista, retratar a sua realidade, a forma como sobrevivem, seus dilemas cotidianos em uma situação de estresse contínuo. Não posso julgar o impacto que isso terá, e não penso que meu trabalho vá mudar o mundo. É preciso muita coisa diferente para criar um movimento e eu faço parte deste processo que inclui cineastas, documentaristas, fotógrafos, escritores que atuam de forma independente, mas, como um todo, talvez façam diferença. Para mim é suficiente que os leitores consigam, por breves momentos, colocarem-se no lugar destas pessoas e assim compreendê-las melhor. Eu encontro gente que diz ter aprendido alguma coisa, então creio que meus quadrinhos contribuem para a conscientização e a educação.
E por que a escolha do conflito entre Israel e a Palestina para fazer dois livros em quadrinhos? 
Como cidadão norte-americano, eu ficava muito contrariado ao ver que meus impostos financiavam a ocupação israelense. Como se não bastasse, via que os palestinos eram tratados pela grande mídia como terroristas em potencial. Mas quando morei na Europa, descobri que toda essa história tinha uma série de nuances, e quis ver de perto a outra versão, a versão dos próprios palestinos. Por isso viajei para lá, falei com muita gente, entrevistei pessoas e vivenciei o dia-a-dia para saber como sobrevivem numa zona de conflito contínuo. 
O que mais chamou sua atenção nas suas viagens à Palestina?
O que mais me impactou foi a escalada impressionante da violência. Se na primeira Intifada os palestinos jogavam pedra e os israelenses atiravam de fuzis, agora aparecem os homens e mulheres-bomba de um lado e superjatos usados por Israel para bombardear os palestinos. O poder bélico e o aumento da capacidade de destruição são impressionantes. 
O senhor está sempre presente como personagem nos seus quadrinhos, em meio às lutas e conflitos que retrata. Isso não compromete a objetividade do jornalista?
Minha ideia é justamente desmistificar a posição do jornalista. Vejo como alguns correspondentes internacionais se comportam como se fossem donos da verdade. Mas quando estamos em campo, no front, a gente descobre como é difícil transmitir algo que alguém disse ou o que aconteceu. Às vezes eu ouvia, em uma mesma família, duas versões diferentes sobre o mesmo fato, em relatos vindos de gerações diferentes. Então precisamos lidar com as imprecisões da memória individual, com as lembranças de cada um. Por isso o jornalismo não é um processo perfeito. O repórter tem que lidar com as várias facetas de uma mesma verdade, transitar por este território áspero e espinhoso, para chegar o mais perto possível dos fatos. Em um conflito, acabamos relatando os acontecimentos que vimos através dos nossos olhos e por isso torna-se impossível descartar a subjetividade, ela é parte inerente ao processo. De qualquer jeito, vale lembrar que o desenho é sempre uma interpretação da realidade e nele o ilustrador tem a liberdade de brincar, de transportar-se de volta no tempo, transmitir sensações e uma enorme quantidade de informações. 
Como vê o uso dos celulares, das modernas tecnologias para o jornalismo cidadão? 
As novas tecnologias são muito importantes, pois permitem alguém que está no meio de uma passeata, em uma situação de crise, tirar uma foto ou fazer um vídeo e enviá-la por telefone. Ou seja, elas democratizam a prática do jornalismo, porque qualquer um pode registrar uma situação, fazer imagens e em mandá-las por e-mail e em dez minutos estão na internet, disponíveis para todo mundo. Ou seja, há um lado positivo, mas também um negativo. Por mais que eu tenha várias críticas à mídia oficial, ao mainstream, pelo menos nela as pessoas têm um treinamento maior para discernir o que é real, o que está acontecendo mesmo, checar as informações etc. 
Como se dá seu processo de criação?
Eu faço pesquisas em arquivos, em bancos de imagens como o das Nações Unidas e depois converso com as pessoas nos locais que visito. Escrevo o roteiro inteiro antes de desenhar. Então vou riscando do roteiro os trechos que não usarei em palavras porque eles estarão no desenho. Há coisas que não precisa mencionar porque elas estão no desenho. A vantagem do desenho é essa: não há necessidade de repetir em palavras que existe lama, nem descrever um prédio, por exemplo, pois estes elementos estarão sempre lá, quadrinho após quadrinho, em forma de desenho. Esse é o poder de síntese da imagem, de transmitir rapidamente uma informação. A grande característica dos quadrinhos é a de transportar o leitor imediatamente para determinada situação, dar a ele a oportunidade de sentir o momento de uma maneira visual. Isso faz com que o leitor se importe mais e se relacione de uma maneira mais profunda com a história contada. Em geral levo cinco dias para terminar uma página. Notas sobre Gaza, por exemplo, tem quase 400 páginas, o que significa que levei cerca de cinco anos para concluir este livro. 
Acredita que a Primavera Árabe terá algum impacto na Palestina?
Não sei ao certo. O que tento fazer, do meu jeito, é dar aos palestinos um pouco da sua própria história, mas acho que eles mesmos precisam contar a sua história. Foi uma grande experiência fazer este livro, mas creio e espero que os palestinos comecem a entrevistar uns aos outros, pesquisar e recuperar sua história.
Como você vê a solução de um ou dois Estados entre palestinos e israelenses?
Creio que o mais prático seria a solução de dois Estados. Mas não existe mais tempo para isso, pois há tantos assentados, e os números estão crescendo. Creio que no final será apenas um Estado. Fico assustado, pois algumas pessoas falam da possibilidade de um só Estado democrático, mas creio que isso tampouco funcionará. Estou meio pessimista no momento, estou esperando que alguma coisa aconteça, alguma coisa que mude o panorama de verdade. 
E os refugiados, acredita que eles irão retornar?
O direito de retorno dos palestinos é um assunto de justiça. Não é tanto sobre paz. Paz significaria que os tiros seriam suspensos, que não haja luta, mas isso não significa que a justiça tenha sido feita. E no final das contas, é preciso lidar com os refugiados. Seus direitos estão inscritos na ONU. Se eles vão negociar isso de alguma forma, se vão trocar por alguma coisa, não sei, cabe a eles, e só a eles, decidir. Mas seu direito de retorno é inquestionável. 
Você está prestes a lançar um novo livro que deixa de lado as zonas de guerra para explorar outros conflitos globais como o drama dos imigrantes, dos expatriados e a miséria nas grandes cidades. Por que esta mudança? 
Depois de trabalhar tanto tempo com conflitos, eu fiquei meio cansado das zonas de guerra, porque, se não vi tudo, já vi demais. Então continuo trabalhando com os oprimidos, com os deslocamentos humanos, com a pobreza extrema que também envolvem conflitos e violência, mas numa dimensão totalmente diferente. Estou buscando uma nova forma de explorar a condição humana. 
O senhor já ouviu falar nos refugiados palestinos e no MST, aqui no Brasil?
Sim, eu conheço meio por alto, de alguns artigos de jornal. Aqui as tribos indígenas isoladas despertam a minha curiosidade, assim como os conflitos de terra no Nordeste e em outros lugares. Eu gostaria de saber mais sobre as pessoas lutando nestas frentes. Enfim, tudo isso pode ser tema de quadrinhos, não só meus, mas especialmente de cartunistas brasileiros. 

O elogiado cartunista Joe Sacco, autor de uma série de livros de quadrinhos em que retrata o cotidiano das populações submetidas a situações de guerra e conflitos, com foco na Palestina, veio ao Brasil participar da Festa Literária Internacional de Paraty. Lá, concedeu esta entrevista exclusiva a Marcia Camargos, escritora e colaboradora do ICArabe. 

Leia mais

Divulgar conteúdo