Fazer o impossível acontecer
Em visita neste mês de março ao Brasil para falar sobre mudanças climáticas, com vistas à Rio+20, Richard Falk não escapou de ser questionado sobre a situação dos direitos humanos nos territórios palestinos ocupados ilegalmente por Israel em 1967 – ao que atuou como relator especial na ONU (Organização das Nações Unidas).
Nem sobre o papel dessa instituição frente à complexa questão ou sobre eventual solução para o drama que assola milhares de cidadãos há 64 anos. Desde a partilha daquele território em um estado judeu e um árabe, recomendada em Assembleia Geral das Nações Unidas no dia 29 de novembro de 1947, até 15 de maio de 1948 – data da criação unilateral do Estado de Israel –, foram expulsos de suas casas e propriedades cerca de 800 mil palestinos e destruídas em torno de 400 aldeias. Hoje, são milhares de refugiados e descendentes, à espera de justiça.
Em uma sala da FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo), durante encontro no dia 16 último, organizado por membros do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial, Falk afirmou que a ONU esbarra em séria oposição para uma atuação mais concreta. Segundo ele, não há tema mais sensível naquele órgão do que esse. Não obstante, ele considera que as Nações Unidas têm funcionado para deslegitimar as políticas adotadas por Israel contra os palestinos, ao denunciar violações de direitos humanos e da lei internacional, por exemplo.
Seu relatório não deixa dúvidas de que se trata de um regime de apartheid – como reconheceu o Tribunal Russell sobre a Palestina em novembro de 2011. Questionado sobre ações em andamento para derrubar o sistema de segregação a que os palestinos estão submetidos cotidianamente, Falk demonstrou ver com bons olhos o que chamou de “uma nova fase da luta”. Entre as iniciativas que a compõem, a por BDS (boicotes, desinvestimentos e sanções) a Israel até que se cumpram os direitos fundamentais dos palestinos e as greves de fome contra prisões administrativas, como a de Hana Shalabi – há mais de um mês – e a de Khader Adnan, finalizada recentemente. Essas últimas chamam atenção para o problema dos presos políticos por Israel – cerca de 5 mil atualmente – e dos abusos e maus tratos cometidos nos cárceres. Perguntado sobre qual seria a melhor solução – um ou dois estados –, ele não teve dúvidas: “Dois é inviável, pelo avanço da colonização. Um também é impossível.” Na sua ótica, a história, contudo, mostra que o impossível acontece. Exemplo dado em texto de sua autoria é a queda do regime de apartheid contra os negros na África do Sul nos anos 90. “Temos que trabalhar com a impossibilidade.”




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