Fórum discute mídia livre e mundo árabe
Em 27 e 28 de janeiro teve lugar na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, o III FML (Fórum de Mídia Livre), o qual contou com a participação do ICArabe. Atividade paralela ao Fórum Social Temático, que começou no dia 24 e foi até o dia 29, a iniciativa incluiu na sua programação o painel internacional “I FML no Magreb Machrek e mídia alternativa na Palestina”. Mohamed Leghtas, coordenador do Portal da Sociedade Civil Magreb Machrek E-Joussour, inaugurou as falas, destacando as experiências de rádios comunitárias na região, de construção de fóruns sociais e os debates que têm ocorrido sobre mídia livre à luz das revoluções que têm sacudido diversos países do mundo árabe.
Ele enfatizou o papel das redes sociais nesse processo e o crescimento de usuários a partir dos levantes. “No Marrocos, 10% da população está conectada ao facebook, sendo que 79% têm menos de 30 anos e 38% são mulheres. O uso de ferramentas de comunicação é muito simbólico, mas tem fortalecido as mobilizações. Uma câmera tem servido como arma sem balas”, disse. Como exemplo de sua importância, citou a imolação de Mohamad Bouazizi, na Tunísia, que foi o estopim para a revolução que derrubou Ben Ali, e a tortura até a morte de Khaled Said, no Egito, após esse ter divulgado os desmandos e arbitrariedades do regime. A denúncia desse assassinato na internet fortaleceu as manifestações na Praça Tahrir que levaram à queda de Hosni Mubarak e se mantêm por liberdades democráticas e justiça social. “A página dessa revolução no facebook chegou a ter 1,7 milhão de adeptos”, observou Leghtas. Ele citou o efeito dominó que culminou em levantes também no Bahrein, Líbia, Iêmen, Síria, Palestina, Marrocos, Argélia e mesmo na Arábia Saudita. E fez questão de salientar o papel das mulheres nessas revoluções.
Falando sobre mídia alternativa e ocupação na Palestina, Ahmad Jaradat, do Alternative Information Center, salientou que esses meios de comunicação sempre existiram ali, como forma de resistir e denunciar a opressão e humilhação a que são submetidos cotidianamente os palestinos. “É parte da luta e ajuda a organizá-la.”
Ele deu um exemplo de comunicação alternativa que foi bastante utilizada, sobretudo, na primeira intifada (levante palestino de 1987 a 1993), para além da internet, com o objetivo de burlar o bloqueio imposto por Israel: “Quando as pessoas iam visitar os presos políticos e não podiam conversar livremente, escreviam em pequenos papéis e os encapsulavam. Os detentos engoliam aquelas cápsulas como forma de troca de informação.” Segundo frisou Jaradat, a mídia alternativa tem papel fundamental nas mudanças sociais, assim como as redes sociais. O correspondente do jornal Brasil de Fato na Palestina, representando o Palestinian Center for Peace and Democracy e o Comitê de Luta Popular de Bil’in, Baby Siqueira Abrão frisou que a mídia também é ocupada por Israel. Lutar por meios livres e conectá-los, bem como pela democratização da comunicação como um todo são, portanto, maneiras de resistir. Um dos caminhos apontados pela plateia é buscar redes sociais alternativas ao facebook e ao twitter, construídas com softwares livres. Isso começou a ser pensado por ativistas do movimento Ocupe Wall Street, e tende a se espalhar.
BDS e Fórum Palestina Livre
Questionado no painel sobre o movimento por BDS e a mídia alternativa, Jaradat explicou que para os movimentos sociais na Palestina a campanha por boicote, desinvestimento e sanções ao apartheid de Israel é fundamental. O chamado palestino ao mundo para que se engaje nessa causa por justiça foi feito em 2005 e tem sido reiterado ano a ano. “É uma das armas principais.” Assim, além de fortalecer o papel da mídia não convencional em informar e difundir essa iniciativa global, sua expectativa é que o Fórum Social Palestina Livre, a se realizar entre 29 de novembro e 1º de dezembro deste ano em Porto Alegre, tenha como uma de suas resoluções um movimento internacional efetivo por BDS. No Brasil, a Frente em Defesa do Povo Palestino, que reúne diversas entidades da sociedade civil, lançou em 20 de setembro de 2010 a campanha nacional por boicotes, desinvestimento e sanções ao apartheid de Israel. Um de seus pleitos é que o governo federal rompa acordos militares com a potência ocupante até que sejam respeitados os direitos humanos fundamentais dos palestinos, como a autodeterminação e ao retorno à suas terras e propriedades.
Assista um trecho dos debates no painel internacional do III FML em http://www.ustream.tv/recorded/20039688.




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