Artigo: Trinta e cinco anos dos massacres de Sabra e Chatila

seg, 18/09/2017 - 13:38

 

Neste mês de setembro, completam-se 35 anos dos massacres nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, em Beirute Ocidental, no Líbano. Cerca de 3 mil palestinos foram assassinados com requintes de crueldade, chocando o mundo. Três décadas e meia depois, a ferida segue aberta. Nos dois locais, a memória dos massacres permanece vívida.

Sabra hoje é um distrito administrativo em que vivem mais de 12 mil pessoas. Shatila se mantém como um dos 12 campos oficiais no Líbano registrados na Agência das Nações Unidas para Assistência aos Refugiados Palestinos (UNRWA) em que se encontram cerca de 450 mil palestinos. Desse total, quase 10 mil vivem em Shatila. Estabelecido em 1949 pela Cruz Vermelha Internacional – portanto, após a nakba (catástrofe que representou a criação do Estado de Israel em 15 de maio de 1948) –, o campo ainda enfrenta grave problema de saneamento ambiental, com sistema de esgoto precário, abrigos úmidos e superlotados. Há apenas duas escolas e um centro de saúde. Pobreza, falta de infraestrutura e desemprego, sem contar a discriminação, são parte do cotidiano dos palestinos, também em Sabra. Sem os mesmos direitos que o restante da população, são proibidos de atuar em dezenas de profissões.

A situação de penúria se repete nos demais campos espalhados por países árabes vizinhos, a um raio de 150km da Palestina ocupada, cuja população total supera os 5 milhões (incluindo os que vivem no Líbano).

 
O genocídio

Em 1982, o Líbano enfrentava uma guerra civil, com uma onda de insatisfação popular contra a elite dominante. Um de seus integrantes era Bashir Geymael, líder de um partido de extrema direita intitulado “Falange”. Ele tinha a intenção de expulsar os palestinos daquele território, pois os considerava “população excedente”. Assumiria a presidência do país, mas foi assassinado em 14 de setembro em decorrência da guerra, antes de concluir seu intento. Mas sua “solução radical” foi colocada em prática por seus seguidores nos três dias seguintes à sua morte, nos campos de Sabra e Shatila, em parceria e com a colaboração estreita de Israel, cujo ministro da Defesa à época era Ariel Sharon. A Organização para a Libertação da Palestina (OLP) já havia sido expulsa, o que fragmentou e enfraqueceu o movimento.

No banho de sangue, foram mortas a tiros ou facadas principalmente mulheres, crianças e idosos. O genocídio foi marcado ainda por outros atos de selvageria, como estupros. A população não teve como escapar, já que Israel não apenas facilitou a entrada das tropas libanesas e as treinou, como cercou os campos, impedindo sua evacuação.

Os assassinatos em Sabra e Chatila integram a trágica lista de massacres cometidos contra palestinos por Israel desde 1948, como parte de uma “limpeza étnica” deliberada, que perdura até os dias atuais. O mais conhecido deles aconteceu em 9 de abril daquele ano, em uma aldeia palestina chamada Deir Yassin, em que viviam cerca de 750 pessoas. Duzentas e cinquenta e quatro delas foram assassinadas naquele dia, também incluindo mulheres, crianças e idosos.

O mundo se levanta

Os massacres em Sabra e Chatila provocaram pelo mundo uma onda de indignação até então sem precedentes na história da Palestina. Uma passeata organizada pelo movimento “Paz Agora” em Israel levou às suas ruas cerca de 400 mil manifestantes. Protestos espalharam-se por todo o globo, incluindo o Brasil, em que marchas com milhares de pessoas foram feitas para exigir justiça. Como consequência, Ariel Sharon, o grande arquiteto do genocídio em Sabra e Chatila, foi responsabilizado indiretamente pelos massacres e afastado do cargo de ministro da Defesa. Ele continuaria ainda por muito tempo a cometer atrocidades como essas, o que lhe valeria o apelido de “açougueiro”, até ficar em estado permanente de coma no começo de 2006 até finalmente falecer em janeiro de 2014.

Diante do regime de apartheid enfrentado pelos palestinos ainda hoje, a sociedade palestina chama a população brasileira a que promova boicotes a Israel, aos moldes do que pôs fim à segregação de negros na África do Sul durante os anos 1990. O governo brasileiro tornou-se nos últimos anos um dos cinco maiores importadores de tecnologia militar da potência ocupante e é o momento de fortalecer a cobrança pela ruptura desses e de outros contratos. De olho na ampliação desse mercado potencial, não só no Brasil, mas em toda a América Latina, uma semana antes do aniversário dos massacres de Sabra e Chatila, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, esteve na região, acompanhado de delegação formada por 30 empresários. Passou por Argentina, Colômbia e México, sendo recebido com protestos pela extensa trajetória a serviço da ocupação e colonização de terras palestinas. Implicado em crimes contra a humanidade, como os massacres em Gaza nos últimos anos – o maior deles durante 51 dias em 2014, quando foram mortos cerca de 2.200 palestinos, entre os quais mais de 500 crianças –, Netanyahu mereceu o rechaço de ativistas e da comunidade palestina. Herdeiro de Sharon nas políticas contra o povo que vive sob ocupação, está – como todas as demais lideranças sionistas – preocupado com o crescimento da campanha de BDS (boicotes, desinvestimento e sanções), a qual tem sido criminalizada. Sinal de que tem dado resultado efetivo para isolar política, econômica e culturalmente o Estado racista de Israel. Homenagem verdadeira às vítimas de Sabra e Chatila deve abarcar o chamado a fortalecer a solidariedade internacional, rumo à Palestina livre. Para que cessem massacres como os que ocorreram em 1982 no Líbano – cuja ameaça iminente, cerco, ofensivas e mesmo limpeza étnica infelizmente ainda hoje são uma trágica realidade dos palestinos que vivem em campos de refugiados no mundo árabe, como na Síria neste momento.

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A  jornalista palestino-brasileira Soraya Misleh é diretora de Comunicação e Imprensa do ICArabe, mestre em Estudos Árabes pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e autora do livro “Al Nakba – um estudo sobre a catástrofe palestina”

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