Islamofobia cresce no mundo, com a benção de Trump

dom, 23/07/2017 - 14:55

A decisão da Corte Suprema dos Estados Unidos, adotada em 26 de junho, de aprovar parcialmente o decreto promulgado pelo presidente Donald Trump, de proibição de entrada no país de refugiados e cidadãos de seis países de maioria muçulmana, tem implicações pavorosas para mundo. O Islã agrega pelo menos 1,5 bilhão de seres humanos e é a religião que mais cresce no mundo, principalmente nas regiões mais miseráveis (Oriente Médio, Ásia e África), mas também em expansão na Europa e nos Estados Unidos. A decisão da Suprema Corte do estado mais poderoso do planeta equivale a um tapa na cara dos islâmicos e dá um sinal verde para o crescimento e fortalecimento dos movimentos de extrema-direita que, em todo o mundo, elegeram o Islã como o “inimigo”.

 A proibição, adotada a pretexto de combater o terrorismo, atinge os refugiados, por um período de 120 dias, e cidadãos do Irã, da Líbia, da Somália, do Sudão, da Síria e do Iêmen, por 90 dias. O decreto é coerente com o que dizia Trump ao longo de sua campanha presidencial: os muçulmanos são terroristas, assim como os mexicanos são estupradores, traficantes, bandidos. O decreto, promulgado pelo presidente logo após a sua posse, havia sido barrado por tribunais inferiores, que o declararam discriminatório. A Corte Suprema aprovou uma versão de alcance limitado, assegurando a entrada de pessoas que podem comprovar relações familiares, de trabalho ou estudo no país. Mas, ainda assim, a mensagem foi dada: o Islã é fonte de terror.

O ódio aos muçulmanos cresce a olhos vistos, e se configura como  elemento de tensão social, racial, étnica e religiosa crescente, uma terrível bomba de efeito retardado, principalmente na Europa e nos Estados Unidos.   

A parcela de muçulmanos da população europeia tem crescido em cerca de um ponto percentual por década, nos últimos 25 anos, passando de 4% em 1990 para 6% em 2010, de 29 milhões para 44 milhões. Hoje, são mais de 54 milhões. Calcula-se que, em 2030, os muçulmanos cheguem a 8% da população. Na Europa, em termos relativos, as maiores populações muçulmanas encontram-se na antiga Iugoslávia (Kosovo, Bósnia e Macedônia, principalmente). Mas, em termos absolutos, habitam a Rússia (mais de 27 milhões), a França e a Alemanha.  

Nos Estados Unidos, o islamismo ganha 20 mil novos adeptos a cada ano. Em 2010, com quase 7 milhões de seguidores, tornou-se a maior religião não-cristã do país, superando o número de judeus. A maioria dos estadunidenses muçulmanos (78%) é formada por imigrantes, ao passo que os demais são oriundos das comunidades negra e hispânica, nascidos nos Estados Unidos e convertidos.

As causas da crescente islamofobia são múltiplas e complexas. As mais imediatas e conjunturais se referem à crise econômica global, iniciada em 2008. É fácil entender que um trabalhador ou cidadão de classe média estadunidense ou europeu, afetado por esse quadro econômico, temeroso de perder o seu emprego ou já desempregado e sem perspectivas, sinta como ameaça a chegada de milhões de refugiados islâmicos, oriundos da África, Ásia e Oriente Médio em busca de trabalho e um lugar para viver.

O sentimento de pânico e frustração é alimentado pela retórica da “guerra ao terror”, que identifica “muçulmano” a “terrorista”. A lógica que cria e fortalece a islamofobia é a mesma que alimenta o antissemitismo. Essencialmente, é sempre “o outro” a causa de nossos problemas: nos anos 20 do século passado, durante o período de catástrofe econômica que mergulhou a república de Weimar no caos, Adolf Hitler responsabilizou judeus, ciganos, comunistas e socialistas; hoje, são os islâmicos que, cada vez mais, cumprem o papel bode expiatório da crise mundial.

Essa lógica produz um “deslizamento” de sentimentos, do antissemitismo para a islamofobia. A francesa Marine Le Pen, líder da Frente Nacional, partido de extrema-direita, é o exemplo mais claro. Ela abandonou o antissemitismo explícito esgrimido pelo seu pai Jean-Marie, fundador do partido, para adotar um discurso mais “moderno” e aceitável para uma parcela do eleitorado francês, mas igualmente hediondo e racista, tendo como alvo a comunidade islâmica.

Há causas mais profundas para a islamofobia, sentimentos e estereótipos adormecidos que são despertados pelo discurso do ódio, e que só podem ser entendidos quando se leva em consideração os longos períodos históricos, que deram origem e forma ao mundo contemporâneo. A Europa e o mundo cristão ocidental se formaram tendo o Islã como “espelho”. Foi a partir das Cruzadas, iniciadas por convocação do papa Urbano II, em 1095, com o objetivo de “libertar Jerusalém”, que se estabeleceu o processo de criação de um imaginário europeu em oposição ao mundo islâmico. A identidade europeia (“nós”) foi construída como uma espécie de imagem enantiomorfa da islâmica (“eles”). Por essa razão, por exemplo, a Igreja Católica jamais admitiu a hipótese da entrada da Turquia, antiga sede do Império Otomano, na União Europeia.

No final de fevereiro, a comunidade muçulmana dos Estados Unidos lançou uma campanha de arrecadação de fundos para reparar as mais de 170 lápides que foram destruídas no cemitério judaico Chesed Shel Emeth, localizado em St. Louis, Missouri. Na semana anterior, 11 centros comunitários judaicos americanos haviam sido ameaçados de destruição. A campanha de solidariedade, lançada por Linda Sarsour e Tarek El-Messidi, atingiu rapidamente o seu objetivo inicial de US$ 20 mil, alcançando mais de US$ 85 mil.

As organizadoras da campanha declararam que ela cumpria o objetivo de repudiar o antissemitismo e qualquer outra forma de discriminação religiosa, étnica e racial, incluindo a islamofobia. Procuraram, portanto, o caminho da interlocução como um meio de evitar a catástrofe. Mas a decisão da Suprema Corte aponta o sentido inverso, anunciando tempos sombrios que, no limite, colocam a humanidade perto da cisão. Adolf dá gargalhadas.

 

Artigo publicado originalmente na revista Caros Amigos.