Tariq Ramadan – Resistência, Justiça e Reforma

sex, 03/11/2017 - 15:34

Ei incumbit probatio qui dicit, non qui negat[1]

Le dire et le répéter... Restez positifs, prenez soin de vous et n'oubliez jamais de dire à ceux que vous aimez que vous les aimez... le redire et le rerépéter... Tariq Ramadan, Facebook official page, 20 juin 2015.

 

Nos últimos 20 anos venho me dedicando diariamente a estudar o Islam em suas vertentes, contextos diversos e utilizando autores de engajamentos intelectuais plurais. Entre eles, um em especial, sempre me chamou a atenção por trabalhar com o que denominamos na academia de Islam Político e questões de densidade religiosa como Ética e Jurisprudência Islâmica – professor Tariq Ramadan, filósofo, nascido na Suíça, neto de Hassan Al Banna fundador da Irmandade Muçulmana, muçulmano, professor da Universidade de Oxford.

Todos esses predicados colocam-no sempre na linha de frente em defesa dos menos favorecidos, e daqueles que estejam passando por violações dos Direitos Humanos, sejam esses, palestinos, de países africanos ou do Oriente Médio. Resistência é algo explícito em seus textos, resistir sempre, porque é assim que se transforma o mundo. Tariq sempre apela para reforma interna do self (nafs/ego). É preciso mudar interiormente primeiro, para então, contribuir para uma sociedade mais justa. A justiça só acontece por meio da igualdade de acessos para todos os cidadãos do planeta, sem distinção de raça, classe social, religião. Mas é a reforma, a compreensão da religião islâmica, que ele vai se dedicar meticulosamente nos seus livros. Sempre retomando o advento da religião, passagens do Alcorão ou dos hadices do Profeta Muhammad, Tariq Ramadan busca contribuir com um discurso homogêneo para a pluralidade da comunidade interna, seus irmãos na religião, porque é para eles(as) que o discurso é preciso: torna-se fundamental aprender a (con)viver em uma sociedade plural como a europeia sem que se configure um afastamento dos princípios religiosos. Em seu livro Mon Intime Conviction aborda suas múltiplas identidades, e o modo como percebe a importância do seu engajamento político-religioso-social. Fui acompanhando todo este pensamento tanto nas suas falas em vídeo, como lendo os poucos textos aos que tive acesso, até que...

No final de 2015 fui contemplada com uma bolsa FAPESP e me tornei Academic Visitor em Oxford sob supervisão do professor Ramadan. O projeto a ser desenvolvido consistia numa reflexão sobre a sua obra a partir dos seus livros, cursos, palestras, vídeos, enfim, tudo que pudesse dialogar com os tópicos do Islam Político e temas teológicos.

Em janeiro de 2016 fui recebida pelo professor na sua sala. Permaneci um bom tempo falando do Brasil com ele, das comunidades brasileiras e do meu interesse pelos estudos islâmicos. Sua generosidade era visível, me indagou no que poderia me ajudar nesta empreitada e colocou sua secretária a minha disposição para o que eu precisasse. Respondeu as minhas várias perguntas, entre elas, uma especial: - como aguenta tantos ataques da imprensa, e outros? Ele sorriu e disse: trabalhando, Alhamdulillah! (Graças a Deus). Estava diante de um homem de fé, sobretudo, um muçulmano diferenciado, que desde meu tempo em Oxford em suas aulas, palestras, cursos em Londres, Granada, até o nosso reencontro em maio deste ano, deu-me ainda mais certeza disso.

Esta introdução longa se faz necessária, porque nos últimos dias algumas denúncias graves envolvendo o nome do professor Tariq Ramadan, surpreenderam a todos os seus alunos, colegas e irmãos na religião. A primeira acusação feita por Henda Ayari, 40 anos, presidente Libératrices (uma associação de apoio a mulheres com dificuldades), relatou um episódio de estupro ocorrido em 2012. A segunda acusação veio de outra mulher, em torno de 40 anos, que acusa-o de violação e de tê-la agredido no ano de 2009.  Nos relatos estão descritos: chutes, violência sexual, sexo anal, trocas de mensagens por e-mail sobre dúvidas religiosas, encontros em hotéis. Ayari revelou que o personagem do livro que ela escreveu era o próprio Ramadan.

Como mulher, e afetada pelas causas feministas tenho ciência de quanto as mulheres são silenciadas, subjugadas, independentemente de religião, contexto cultural, etc. A igualdade de gênero e o respeito são lutas cotidianas almejadas por nós mulheres. Sendo simpatizante do movimento feminista Interseccional que se preocupa com as questões de raça, classe, etnia, etc., considero legítimo que as denúncias sejam feitas, em se tratando de qualquer homem, mas acho completamente ilegítimo que se faça a condenação de uma pessoa sem antes efetuar a apuração devida dos fatos. No Brasil, por exemplo, temos o caso da Escola Base, cujos diretores foram condenados injustamente pela imprensa e a opinião pública, para anos depois ser provada a inocência deles. Não obstante, a imagem da Instituição e das pessoas não pode ser reconstruída.

É preciso sinalizar que no Islam é proibida a calúnia e a difamação de uma pessoa. Os muçulmanos usam o caso de Aisha, esposa do Profeta, como exemplo, pois caiu sobre ela a acusação de adultério. Em resposta ao que aconteceu com ela, foi revelada a surata Al Nur que traz todas as regras contra o adultério e a calúnia.

“Quando a receberdes em vossas línguas, e dissestes com vossas bocas o que desconhecíeis, considerando leve o que era gravíssimo ante Deus; quando deveríeis, ao ouvi-la, ter dito: Não nos compete falar disso. Glorificado sejas! Essa é uma grave calúnia!” (24, 15-6)

Considero importante atentar para um breve histórico de episódios que envolvem o nome de TR, em 2015 após o atentado Charlie Hebdo. Em uma entrevista, ele condena o atentado, mas não concorda em dizer “Je suis Charlie”, ele enfatiza o contrário: “Je ne suis pas Charlie Hebdo”, como podemos ver no vídeo https://www.youtube.com/watch?v=TuuEHRx_hcU. Esta recusa de dizer “Je suis Charlie Hebdo” trouxe uma resposta feroz do governo francês e dos seus adversários.  É fato que após este período os seus livros foram considerados leitura proibida na França, era difícil encontrar um livro que não estivesse danificado. Em 2016 ele foi proibido de conferir uma palestra em uma universidade em Paris, sem uma justificativa plausível, a polícia foi chamada para assegurar que ele não entraria no auditório. É sabido que Ramadan é um grande combatente na França contra a crescente islamofobia, se colocando ao lado da comunidade muçulmana francesa e aos direitos assegurados por lei, como cidadãos que são. Sendo ele também residente na cidade, tomou a decisão de pedir a sua naturalização francesa, e a resposta ao seu pedido deve sair em breve. Recentemente sua participação em um programa com o filósofo Edgar Morin com o qual desenvolveu um livro de debates filosóficos Au péril des idées foi vetada, permitiram apenas que Morin falasse.

O fato de Tariq Ramadan não poupar palavras para defender a Palestina, assim como qualquer outro povo que tenha os seus direitos humanos violados, deve gerar incomodo em muitos governos, organizações e pessoas poderosas. Durante o governo Bush ele foi proibido de se tornar professor nos EUA, teve seu visto suspenso, e só este ano conseguiu ir ao EUA proferir uma palestra.

A questão que gostaria de levantar é: Quem ganha com a desonra de Tariq Ramadan? Cabe considerar que as comunidades islâmicas passam por um momento delicado, devido a uma crescente islamofobia global. Edward Said bem pontuou a construção orientalista da imagem de um homem árabe muçulmano como bárbaro e irracional, do mesmo modo que vemos a associação do Islam ao terrorismo. É difícil a desconstrução de estereótipos, mas é o papel que realizamos enquanto antropólogos.

Por fim, como pesquisadora de comunidades muçulmanas e conhecedora do universo árabe muçulmano, posso dizer que não há algo que mais afete um homem árabe muçulmano religioso que a sua honra, todas essas identidades são atributos do professor, embora, seja suíço de nascimento, suas raízes árabes egípcias são incontestáveis. E mesmo me sensibilizando sempre com a causa das mulheres, sejam elas muçulmanas ou não muçulmanas, pondero que neste momento precisamos de um ar de justiça, que os fatos sejam investigados e analisados com ponderação, para que as pessoas envolvidas não sejam prejudicas em demasia. Sim, a violência contra mulher existe, mas estamos realmente diante de um caso de violência? Ou vivemos todos nós em um redemoinho de controvérsias e narrativas ainda obscuras? Neste momento devemos exigir que o processo seja acompanhado por observadores internacionais sem antecipar culpados ou vítimas. Exigir, portanto, que a justiça seja feita.

 

Francirosy Campos Barbosa: 

Antropóloga, Academic Visitor na Universidade de Oxford, sob a supervisão do professor Tariq Ramadan em 2016, docente do Departamento de Psicologia da USP/FFCLRP, coordenadora do GRACIAS – Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes, autora do livro: Performances Islâmicas em São Paulo: arabescos, luas e tâmaras. Email: francirosy@gmail.com

[1] O ônus da prova cabe a quem acusa, não a quem é acusado.

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