Você sabe o que é alimento Halal?

qua, 15/12/2010 - 17:21
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Poucas pessoas no Brasil sabem, mas os muçulmanos, assim como muitos cristãos e judeus, também seguem regras em relação à alimentação. Esse desconhecimento ocorre pelo pequeno número dos seguidores dessa religião no Brasil, diferentemente dos países árabes, onde são a maioria. O alimento permitido no Islã, de acordo com as regras de Deus escritas no Alcorão, é denominado Halal, que em árabe significa lícito, autorizado. 

Para que uma comida seja considerada Halal é necessário que siga determinadas regras de fabricação. No caso de carnes, as normas dizem respeito à forma de abate, lembrando que suínos e bebidas alcoólicas estão terminantemente proibidas. (Veja abaixo o quadro com as regras).

Mas em um mundo globalizado, em que as produções são feitas em grande escala e vão muito além das fronteiras de nossos países, como é possível garantir que uma comida é Halal? Para isso existem instituições certificadoras, que acompanham os procedimentos de fabricação e abate. Uma delas é a Cibal Halal (Central Islâmica Brasileira de Alimentos Halal), braço operacional da Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (FAMBRAS), que atua no Brasil desde 1979. “Para fazer a certificação, um inspetor vai à indústria, faz o levantamento de todos os produtos que são utilizados e realiza laudos técnicos para comprovar que não existe qualquer ingrediente proibido, principalmente álcool e produtos suínos”, explica Mohamed Hussein El Zoghbi, Diretor Executivo da Cibal Halal.

El Zoghbi, presidente da Cibal HalalMohamed Hussein El Zoghbi, Diretor Executivo da Cibal Halal

Como o número de consumidores muçulmanos é muito pequeno no Brasil, segundo Mohamed cerca de um milhão de pessoas, a produção Halal do país é basicamente para exportação. A maior concentração de seguidores do Islã está em São Paulo e a maioria é de imigrantes recentes. “Nosso mercado interno é mínimo. Você nem encontra produtos Halal nos supermercados”, afirma ele. Para os brasileiros que querem comer esse tipo de alimento, existem algumas empresas pequenas que produzem em pouca quantidade, e que a própria Cibal indica. “Seguir os mandamentos do Alcorão em relação à alimentação não é tarefa muito fácil no Brasil. A religião diz que, preferencialmente, muçulmanos têm que comer o alimento Halal, mas se não tem, paciência”, diz.

De acordo com Mohamed, estão se adequando ao padrão Halal não só empresas que exportam para países muçulmanos. “Muitas estão vendo o certificado Halal como um algo a mais, uma garantia de qualidade, pois nós exigimos e acompanhamos todo o processamento”, explica. Segundo ele, a carne Halal, além de religiosa, é mais natural. Nem o frango nem o boi podem ter comido ração com aditivos ou com proteína animal nem podem ter recebido doses de hormônio para engorda. Além disso, os processos de embalagem, armazenagem, certificação e embarque da carne Halal é feito de forma segregada da produção comum. Ou seja, existem as empresas que só fazem alimentos Halal e existem as que fazem alimentos comum e Halal. No segundo caso, não pode haver mistura de ingredientes e os procedimentos podem até ocorrer na mesma fábrica, mas em equipamentos diferentes.

O abate

Islâmicos só comem frango ou carne bovina se o animal tiver sido degolado com o corpo voltado à cidade sagrada de Meca, ainda vivo  e pelas mãos de um muçulmano praticante, geralmente árabe. A faca com a qual é feita a degola precisa estar super afiada para garantir a morte instantânea do animal, sem sofrimento. Antes do abate de cada bicho, o degolador pede autorização a Deus, em árabe, como forma de mostrar obediência e agradecimento pela comida e de reafirmar que não está matando o animal por crueldade ou sadismo.

Peixes são considerados Halal por natureza, porque saem da água vivos. Já os suínos são considerados impuros pelo modo como se alimentam, por estarem ligados a ambientes de sujeira.

Os países que importam carne do Brasil exigem que quem faça o abate não seja vinculado à empresa produtora. “A Cibal tem funcionários no Brasil inteiro. Nós treinamos essas pessoas, entre as quais estão muitos africanos, refugiados políticos”, afirma o presidente da empresa.
 

Distribuição gratuita de livros  feita pela FAMBRASDistribuição gratuita de livros  feita pela FAMBRAS

Segundo ele, o procedimento não mudou muito ao longo dos anos, pois o Alcorão determina como deve ser feito. “Mas todo ano tem um congresso mundial Halal, onde são trocadas informações que não servem para modificar, mas modernizar a forma de abate”. Um exemplo citado é que antes, o boi era abatido no chão e a degola era mais difícil. A Cibal desenvolveu um box específico onde o boi entra de pé, tem um suporte onde ele coloca a cabeça um pouco levantada, facilitando o corte. “Essa modernização é necessária porque antigamente se matavam dois bois por dia, hoje são milhares”, complementa. A Cibal tem em média 300 funcionários, dependendo da época do ano. No período do Ramadã, por exemplo, o consumo aumenta e é necessário contratar mais gente.

Filantropia

A Fambras é uma instituição sem fins lucrativos, que tem como principal função congregar os muçulmanos e divulgar o Islã. A certificação Halal só teve início porque em fins da década de 70 muitas empresas estavam tentando expandir seu mercado para o Oriente, por necessidade de exportação. “Mas essa atividade não tem como fim a geração de lucro. Obviamente há um custo para que seja feita a certificação, já que envolve o trabalho de funcionários, mas toda a arrecadação é reinvestida nas atividades da federação”, explica Mohamed. Entre essas ações está o auxílio às mesquitas do país e a publicação e distribuição gratuita de livros que divulgam e explicam o pensamento islâmico.

“Divulgar o Islã de forma positiva é um desafio atualmente, já que existe um trabalho em direção oposta, feito pela mídia, principalmente a norte-americana, que distorce as informações. Mas acredito que isso ocorra mais por desconhecimento do que por intenção. Entretanto, no Brasil, temos um relacionamento excelente com todas as religiões e a população em geral. O Islã é uma religião extremamente tolerante”, avalia ele.

Quais alimentos são Halal?

Está permitido ingerir como alimento, respeitando as Leis islâmicas, todo o tipo de alimento que não contenha ingredientes proibidos ou partes desses alimentos ou de animais que não tenham sido abatidos/degolados dentro dos procedimentos e normas ditadas pelo Alcorão Sagrado e pela Jurisprudência Islâmica.     
 

  • Os peixes e outros animais aquáticos são permissíveis (Halal), a não ser aqueles que estejam intoxicados ou que sejam prejudiciais à saúde humana, ou venenosos;  assim como, estão proibidos os animais que vivem tanto na terra como na água, como crocodilos e seus assemelhados.  
  • Todo o tipo de vegetal é Halal, a não serem aqueles que estejam contaminados ou intoxicados por pesticidas, sejam venenosos ou produzam efeitos alucinantes ou que de qualquer forma possam ser prejudiciais à saúde do homem.
  • Qualquer produto mineral ou químico, em princípio é permissível, exceto aqueles com possam causar qualquer tipo de intoxicação ou prejuízo à saúde.
  • A água é totalmente Halal, exceto quando esteja contaminada ou por qualquer meio for prejudicial à saúde.
  • Todo produto, criado por meio da biotecnologia, extraído de vegetal, mineral e microbiana para a indústria alimentar é Halal.
  • Produtos de origem sintética utilizada na indústria de alimentação será Halal a partir da comprovação de sua elaboração, onde se prove que não é prejudicial ao ser humano.
  • Derivado de origem animal, utilizado nas indústrias de alimentação, só será Halal, se o animal for sacrificado conforme a lei islâmica, mediante comprovação sob a supervisão da CIBAL Halal.
  • Queijo processado através do coalho microbiano é Halal.
  • Leite (de vacas, ovelhas, camelas e cabras).
  • Queijo processado através do coalho microbiano é Halal.
  • Frutas frescas ou secas, legumes, sementes como amendoim, nozes, caju, avelãs, grãos como trigo, arroz, centeio, cevada, aveia etc.,  a não serem aqueles que estejam contaminados ou intoxicados por pesticidas (agrotóxicos em excesso), ou que de qualquer forma possam ser prejudiciais à saúde do homem.