Com debate no bar Al Janiah, livro "A limpeza étnica da Palestina" é lançado em São Paulo

sex, 17/02/2017 - 15:05

 

Publicado pela primeira vez em português pela Editora Sundermann, o livro “A limpeza étnica da Palestina”, do historiador israelense Ilan Pappé, foi lançado em São Paulo nesta quinta-feira, 16 de fevereiro. O evento ocorreu no espaço cultural e gastronômico Al Janiah, no centro de São Paulo, com um debate com Reginaldo Nasser (professor da PUC-SP) e os jornalistas Soraya Misleh (coordenadora da Frente em Defesa do Povo Palestino) e Arturo Hartmann (membro do Movimento Palestina para Tod@s), ambos diretores do Instituto da Cultura Árabe (ICArabe). A conversa teve mediação de Henrique Sanches.
 
“Esse livro veio muito tarde”, frisou Hartmann, sobre a tradução agora para a língua portuguesa. O jornalista falou sobre como a limpeza étnica é abordada por Pappé durante a chamada Nakba, catástrofe palestina em 1948, ano da criação do Estado de Israel – quando foram expulsos 800 mil palestinos de suas terras e destruídas cerca de 500 aldeias. “Israel jamais vai se permitir discutir a questão dos refugiados, pois seria confessar um crime internacional”, declarou, sobre a limpeza étnica perpetrada por Israel.
 
Soraya Misleh abordou os planos deliberados para tanto e a comprovação desse crime contra a humanidade, de acordo com a análise do historiador. “Illan Pappé comenta sobre a mudança da paisagem, que faz parte da limpeza étnica. Havia um comitê para mudar os nomes dos lugares”, afirmou. Misleh deu como exemplo a aldeia em que seu pai nasceu, Qaqun, citada na obra. “Como conta Pappé, foi um caso clássico do que estava previsto no Plano Dalet, o mais agressivo de todos e derradeiro. Qaqun constava desse plano. Para expulsar a população, cercaram a aldeia por três lados e bombardearam o centro. Mataram dezenas de pessoas e deixaram apenas uma saída para as demais saírem à força.” 
Ela falou ainda sobre a urgência da solidariedade internacional, aderindo à campanha de boicote a Israel. “Falam que o boicote impede o diálogo. O que impede o diálogo é o racismo e a colonização. Ninguém pensaria ser possível humanizar o apartheid na África do Sul ou o nazismo. Também não é possível humanizar o sionismo. É preciso derrotar esse projeto político”, declarou.
 
Para o professor de Relações Internacionais Reginaldo Nasser, o boicote deve ser feito também às corporações internacionais e a outros governos. “O dia em que esse apoio diminuir, acaba Israel. As esquerdas não podem apoiar o imperialismo”, criticou. “A luta do boicote deve ir ao cerne do capitalismo”, disse. O professor também falou sobre o autor do livro. “Illan Pappé é mais que um historiador, é um personagem da luta palestina”, declarou.

Simbólico 

Os debatedores falaram sobre a importância de realizar o lançamento em um espaço palestino. “A gente está em um restaurante de refugiados, que não podem voltar, são impedidos do direito de retorno, exatamente pelo silêncio sobre a questão palestina”, afirmou Arturo Hartmann.
 
Soraya Misleh salientou a importância de o livro ser lançado no Al Janiah. “Estou emocionada, é simbólico lançarmos esse livro em um local de refugiados palestinos, muitos dos quais vieram da Síria e nunca estiveram na Palestina por conta da Nakba, que não acabou”, denunciou em relação a Israel.
 
Nasser elogiou o local, que teve novo espaço inaugurado em janeiro. “A comida e a música são muito boas, mas a política é assim, é de luta”, declarou.
 
Também para o filho de refugiados palestinos e administrador do local Hasan Zarif, o lançamento foi simbólico. “Esse é um espaço para a gente divulgar a questão palestina. Já somos 25 palestinos e palestinas trabalhando aqui.” Ele lembrou que em 2017 se completam 70 anos da partilha da Palestina recomendada pela ONU em 29 de novembro de 1947, que deu sinal verde para a Nakba. Neste ano, como enfatizou Zarif, também são 100 anos da Declaração Balfour (em que a Grã-Bretanha declarou-se favorável à constituição de um lar nacional judeu na Palestina), além de 50 anos da Guerra dos Seis Dias (quando Israel ocupou militarmente o restante do território palestino). “É um ano em que a gente tem que disputar a consciência das pessoas contra o lobby forte sionista que tem aí e mostrar o que acontece na Palestina”, afirmou.
 
Leia também: Al Janiah, espaço cultural e gastronômico palestino, reabre em São Paulo (http://www.icarabe.org/node/ 2921)

Para adquirir o livro “A limpeza étnica da Palestina”: www.editorasundermann.com.br