Para além das “Primaveras”, a voz da mulher árabe (muçulmana)

qui, 06/03/2014 - 13:52
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A ideia de que as mulheres árabes ficaram “mais fortes” depois da Primavera Árabe carrega em si o equívoco de que elas foram “passivas” diante do que ocorre com elas e com sua sociedade. As mulheres não são receptoras e transmissoras passivas, pois, usam estratégias para lutar contra os estereótipos que as definem como: “emocionais”, “fracas”, “trabalhadoras”, “obedientes” e “oprimidas”.

As agendas feministas/femininas sempre existiram no Oriente Médio. No no Egito, por exemplo, temos a presença de duas líderes feministas Huda Sha´rawi (1879-1947) fundadora em 1923 da União das Feministas Egípcias (al-Ittihad al Nisa´i al-Misri) e Duriyya Shafia (1908-1975) que fundou em 1948 a União das filhas do Nilo (Ittihad Bint al-Nil).

As estruturas políticas patriarcais de países como Egito, Iêmen e Síria, entre outros, podem ter abafado grupos como esses, mas não se pode dizer que eles não existiram e existam. As mulheres sempre estiveram ligadas aos mais diversos movimentos sociais, portanto, o problema não está na “voz” dessas mulheres, mas sim, na “audição” que lhes foi negada. O que é ouvido dessas demandas? O que a Primavera Árabe fez foi dar maior visibilidade aos movimentos e reinvindicações das mulheres. A mídia internacional fez bem o serviço, mas continua colocando essas mulheres como as “submissas”, “desprotegidas”, que precisam ser salvas pelo Ocidente, como bem colocou Lila Abu-Lughod. Elas precisam ser salvas?

O Ocidente preocupar-se apenas com a “salvação de mulheres árabes muçulmanas”, para não dizer, com a “salvação de mulheres muçulmanas”, é também um discurso ocidental de olhar para essas mulheres como oprimidas pelo sistema, sem voz, sem articulação. Grupos feministas como Femen tiveram resposta à altura quando tentaram ser a “voz” das mulheres muçulmanas. “O Femen não nos representa”, responderam as muçulmanas em redes sociais. Iniciativas como Hijab Day, embora com críticas de algumas feministas islâmicas, correu o mundo e hoje encontra na maioria da muçulmanas uma forma de expressão pelo uso da vestimenta islâmica (hijab, niqab, xador).

O que o feminismo islâmico reivindica é uma ijtihad (interpretação) das fontes islâmicas (Alcorão, Suna) em que se faça uma observância aos direitos femininos. Feministas islâmicas como Fatima Mernissi e Amina Wadud, entre outras, vêm escrevendo sobre isto há algum tempo. Essas autoras muçulmanas se colocam na posição de que é na interpretação das fontes sagradas que há os equívocos.

Na Arábia Saudita, Samar Badawi enfrentou a lei e comandou um movimento com outras mulheres pelo direito de dirigir. Outras demandas coexistem em outros países, como o direto à educação, ao trabalho, a escolher o marido, o direito a não mutilação genital, que no Egito, por exemplo, chega na escala superior a 50%, embora haja uma lei estabelecida em 2008.

Deve-se apreender que o olhar orientalista leva o Ocidente sempre a estigmatizar a atuação dessas mulheres, esquecendo-se que “mulheres árabes” é um termo generalizante que diz muito pouco, por vários fatores: religiosos, econômicos, sociais, políticos etc. Não é possível definir uma única agenda, porque há várias agendas e agências sendo realizadas neste momento. É preciso olhar para cada contexto e buscar compreender as nuances dessa mulher que está desde sempre construindo a sua história.

Referências

Abu-Lughod, Lila. Do muslim women really need saving?  Anthropological relections on cultural relativism and its other. American Anthropologist, v.104. issue 3, p.783-790, 2002a.

Ferreira, Francirosy, C. B. Diálogos sobre o uso do véu (hijab): empoderamento, identidade e religiosidade. Perspectivas: Revista de Ciências Sociais (UNESP. Araraquara. Impresso), v. 43, p. 183-198, 2013.

Mernissi, Fatima. Las sultanas olvidadas: la historia silenciada de las reinas del Islam. Barcelona: El Aleph Editores, S.A., 2003.

Wadud, Amina. "Qur'an and Woman: Rereading the Sacred Text from a Woman's Perspective", published in March 1999.

Francirosy Ferreira é antropóloga, docente USP, FFCLRP e coordenadora do GRACIAS – Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes; http://www.antropologiaeislam.com.br/)

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