Iraque - 4 anos sob ocupação - parte 2

ter, 20/03/2007 - 12:50
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Há quatro anos, começava a ocupação estadunidense

País árabe já não tem controle sobre seu petróleo e sofre com a ação dos interesses dos Estados Unidos.Há exatos quatro anos, no dia 20 de março de 2003, forças lideradas pelos Estados Unidos invadiam o Iraque. Semanas depois, já no dia 1º de maio do mesmo ano, a bordo do porta-aviões USS Abraham Lincoln, uma das bases para os ataques ao país, George Walker Bush, presidente, fez discurso que marcava o fim das grandes operações da invasão. Para ele, a etapa mais difícil teria sido feita. Restava apenas treinar iraquianos para manter a ordem e montar um governo. Assim, isso não foi dito, os interesses que haviam levado a potência ao país árabe poderiam finalmente tomar seu curso. Alguns dos trechos que Walker disse ao mundo, retirados da versão na íntegra publicada pelo Washington Post (http://www.washingtonpost.com/ac2/wp-dyn/A2627-2003May1): “Obrigado. Muito obrigado. Almirante Kelly, Capitão Card, oficiais e marinheiros do USS Abraham Lincoln, meus companheiros americanos, as grandes operações de combate no Iraque chegaram ao fim. Na batalha do Iraque, os Estados Unidos e seus aliados prevaleceram.(APLAUSOS) ... A Operação Liberdade Iraquiana foi levada a cabo com uma combinação de precisão, velocidade e bravura que o inimigo não esperava e que o mundo nunca tinha visto. … Agradecemos a todos os cidadãos do Iraque que deram as boas-vindas a nossas tropas e se juntaram na libertação de seu país. E, esta noite, tenho uma palavra especial para o Secretário Rumsfeld, para o general Franks e para todos os homens e mulheres que vestem o uniforme dos Estados Unidos: a América é grata pelo trabalho bem feito.(APLAUSOS) ... Com novas táticas e armas precisas, nós podemos conquistar objetivos militares sem dirigir violência contra civis. Nenhum instrumento do homem pode remover a tragédia da guerra, mas é um grande avanço que os culpados tenham mais a temer da guerra do que os inocentes.(APLAUSOS) ... Nós começamos a busca por armas químicas e biológicas escondidas, e nós já sabemos de centenas de lugares que serão investigados. Estamos ajudando a reconstruir o Iraque onde o ditador construiu palácios para si em vez de hospitais e escolas. E nós apoiaremos os novos líderes do Iraque enquanto eles estabelecem um governo do, pelo e para o povo do Iraque. (APLAUSOS). Não se pode exigir de Bush, apesar de ser um homem extremamente religioso, que fosse competente como profeta e adivinhasse que, quatro anos depois da invasão encabeçada por ele, o Iraque se encontraria em frangalhos e as tropas estadunidenses estivessem com enormes problemas de ação. Mas como presidente, ele foi um fracasso cristalino e palpável. Ao contrário do que Bush afirmou na época, nenhum tipo de vitória foi conquistada. Na verdade, qualquer análise da ação militar dos Estados Unidos chegará à conclusão que ela foi um completo fracasso. Robert Gates, que assumiu cargo de Secretário de Defesa no lugar de Donald Rumsfeld em novembro de 2006, chegou a ela. Disse, na sessão em que foi aprovado pelo Senado, que o país estava perdendo a guerra. Donald Rumsfeld não fez um trabalho tão bom assim. Além disso, a operação não foi precisa e levou junto a vida de muitos civis iraquianos e grande parte da infra-estrutura social do país. O Iraque - e depois de certa relutância mesmo os estadunidenses admitem – vive uma violenta guerra civil (http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u105490.shtml). Ao contrário do que disse o profeta Walker, muitos civis deveriam temer pelo que estava por vir. Bush viu no final de 2006 os piores índices de aprovação de seu governo, não só em relação ao Iraque, mas também ao governo em geral. Segundo pesquisa publicada no Washington Post, 62% dos estadunidenses desaprovam a forma como ele conduz seu mandato de presidente. 70% desaprovam a atuação estadunidense no Iraque, contra 28% de aprovação (no início da guerra, o índice de aprovação era de 69%. Depois do discurso de Bush no Abraham, no início de maio, já havia caído para 58%). A vitória dos democratas nas eleições legislativas de fevereiro de 2007 deram o sinal a Bush de que a campanha no Iraque começava a ressoar no seu quintal. (o Washington Post disponibiliza uma lista com resultados de pesquisas a respeito do governo desde 2003 - http://www.washingtonpost.com/wp-srv/politics/polls/postpoll_121206.htm) As similaridades com o Vietnã, trauma militar simbólico dos Estados Unidos imperialista, assombram a administração Bush. Lá, em 11 anos, 58 mil estadunidenses morreram em combate. Já os quatro anos da ocupação no Iraque, segundo dados oficiais, contam aproximadamente 3200 mortes do exército invasor. Desde o discurso de Bush, foram 3079. Além da perda de vidas, os Estados Unidos listam muitos fracassos. Mas não deixaram de cobrar a conta dos gastos que tiveram, e ela será paga com o dinheiro que sai do solo iraquiano. Mais uma perda para os árabes. Nos bastidores do poder legislativo, um acordo irá colocar nas mãos estrangeiras o controle do petróleo iraquiano. Logo depois da invasão do Iraque, os Estados Unidos tomaram o controle de todas as contas do governo, incluindo aquelas das vendas do petróleo. (a informação é da NBC News, de fevereiro de 2005 - http://www.msnbc.msn.com/id/6621523/) Mas o golpe final para que os Estados Unidos lucrem com a invasão e paguem a conta do que gastaram foi dado no início deste ano. A Lei do Petróleo dará parte importante do controle das rendas do petróleo para empresas estrangeiras, as gigantes do negócio. Em entrevista ao site Democracy Now, Raed Jarrar – arquiteto iraquiano diretor do projeto Global Exchange (organização de direitos humanos internacionais) - explica os pontos mais problemáticos da lei: http://www.democracynow.org/article.pl?sid=07/02/20/1523250 “Há três pontos que acredito que devemos destacar. Financeiramente, a lei legaliza modos muito injustos de contratos que colocarão o Iraque em contratos de longo período que podem chegar a até 35 anos e causar perdas de bilhões de dólares para o país sem qualquer motivo ... O segundo ponto diz respeito à soberania. O Iraque não poderá controlar os níveis, os limites de produção, o que significa que o país não poderá mais fazer parte da OPEP. E o Iraque terá essa instituição complicada chamada Federal Oil and Gas Council, que terá representantes de companhias de petróleo estrangeiras na mesa diretora, por exemplo, da ExxonMobil, Shell e British Petroleum. Eles estarão na plataforma federal aprovando os próprios contratos ... O último ponto é a separação dos fundos iraquianos em três. A lei autorizará todas autoridades de províncias regionais a ter a palavra final sobre o petróleo, no lugar de ser esta do governo federal. Abrem-se as portas para a divisão do Iraque em três”. Walker pode estar sentado em cima de muito petróleo (a segunda maior reserva do mundo, depois dos sauditas), mas não pode explorá-la. Alguns grupos que compõem a miríade da resistência iraquiana continuam a sabotar instalações de prospecção de petróleo. Ao contrário do que imaginava Bush, os iraquianos não estavam do lado de suas tropas. Uma onda de insurgência varreu o país durante os quatro anos e não parece arrefecer mesmo depois da implantação da Operação Imposição da Lei, levada a cabo por governantes iraquianos. Mas isso os invasores já sabiam. Em um dos primeiros estudos feitos com a opinião pública do Iraque, depois da invasão dos Estados Unidos, a empresa de pesquisa Gallup perguntou a iraquianos o que pensavam ser os motivos de Bush para ir à guerra: 1% pensavam que ele queria implantar a democracia; 5%, ajudar a população iraquiana; 43% acreditavam que Bush queria “roubar o petróleo iraquiano”.