Romance procura revelar verdades sobre a Guerra do Golfo

ter, 06/03/2007 - 12:50
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O jornalista brasileiro Robinson dos Santos mergulhou profundamente nos acontecimentos que levaram à Guerra do Golfo de 1991 para dar forma ao romance de espionagem “Souvenir Iraquiano”, um retrato do submundo inerente à guerra.“Souvenir Iraquiano” é um romance de espionagem que conta a história de um brasileiro (Luciano), um iraquiano (Fahed) e um estadunidense (Wittmann) em meio ao que viria a ser a Primeira Guerra do Golfo. Cada um, movido por dramas e decepções que afligem suas próprias sociedades, se entrega a tramas de roubo e pilhagem no mercado negro que surge com a guerra que o Iraque conheceu em 1991. A história nas páginas de Souvenir é ficção, a construção de uma trama que passa a sensação de mistério e suspense, e que será resolvida no final. Mas nem tudo é invenção em Souvenir. Ao contrário, seu autor acredita que um romance de espionagem deve fazer um pacto de verossimilhança com o leitor. “Ele precisa ter uma noção de que aquilo é realidade. Não é simplesmente uma literatura de ficção, fantástica, pois o interessante do romance de espionagem é exatamente a revelação de uma verdade oculta ”. Durante o processo que levou à finalização de seu livro, Robinson fez mestrado em Literatura na Universidade Federal de Santa Catarina, esforço para entender o mecanismo do gênero no qual ele trabalhava na época. O que marca as páginas do livro, além da história romanceada, é a busca por revelar fatos que foram ocultos durante a Guerra do Golfo. O autor baseia toda a estrutura da trama em informações que conseguiu através de livros e entrevistas sobre a vida no Iraque pouco antes dos ataques. E a necessidade em mergulhar no que foi escondido vinha da percepção de que a Guerra do Golfo era uma história mal contada. “Existe muita mentira. Somos mal informados. A maioria compra o ‘peixe’ vendido pela CNN e pelo resto da mídia”. Para ele, o conjunto dos noticiários que cercaram a guerra do Golfo, e cercam a atual invasão, são um esforço para transformar a cultura dos povos da região, principalmente a árabe, em lixo. O importante para ele era mostrar que o Iraque não podia ser visto como o vilão que o Ocidente pintou. A própria produção cultural de massas no Ocidente cria e reforça essa imagem. Robinson diz que, mesmo antes da queda do muro de Berlim e com a derrocada do Império Soviético, a ficção do romance de espionagem, do conflito do fim do mundo, começa a migrar do russo para o muçulmano. “O jornalista, que deveria ter uma visão mais aberta ou pelo menos desconfiar do que diz o mainstream, não tem. A ficção forja as pessoas. Os países são gerados pelas narrativas”. A HISTÓRIA DO LIVRO A produção do livro tem sua própria trama. No início de 1998, o jornalista fez viagem de férias a Berlim. Recomendado, não deixou de visitar o “Pergamon Museum, idealizado nos anos 20 pelos alemães Alfred Messel e Ludwig Hoffmann. O museu é formado por construções em seu tamanho original de estruturas do Oriente Médio ou que tenham sido resultado da cultura islâmica. Robinson, logo na entrada, deu de cara com a fachada de uma acrópole grega. À medida que seguia o curso do passeio, deparou-se com a seção das civilizações suméria e assíria, povos que viveram no que é o atual território iraquiano. Ali, estava exposto um jogo de dados antigos, “eles tinham em torno de 3000 anos, com números cuneiformes”. O escritor ficou impressionado com os objetos e, depois da visita, não pôde ignorar o sentimento de que algo havia sido pilhado. “O museu tem a entrada de um castelo babilônico, o castelo inteiro, com seus azulejos e decoração. Tudo foi tomado entre os séculos XVIII e XIX. Aquilo é tudo roubado. Os europeus roubaram tudo, o que continua acontecendo”. No final de 1998, de volta ao Brasil e ao seu trabalho jornalístico, Robinson editava uma página com matérias de assuntos internacionais vindas de agências. Elas falavam sobre os bombardeios americanos na faixa de exclusão do Iraque, no período das sanções contra o país. “Eram bombardeios diários”. Uma outra matéria noticiava ladrões de relíquias que haviam sido condenados. Eram britânicos que contrabandeavam artefatos antigos do Iraque para a Turquia. “Naquele momento, a ligação da guerra com a arqueologia começou a se delinear dentro de minha cabeça”, explica o escritor. A ligação guerra-arqueologia é apenas mais um dos problemas que se constituem em momentos de conflitos, especialmente quando ocorrem no Oriente Médio. No Iraque, como explicou o arqueólogo Marcelo Rede em conversa com o Icarabe (leia na seção Entrevistas) , uma das cenas mais marcantes do início da invasão foi o saque do Museu Nacional de Bagdá. Com a repercussão negativa, mesmo os Estados Unidos fizeram esforços para amenizar a situação e limitar o tráfico. “Um levantamento bastante completo de perdas do Museu foi realizado. Organizaram-se grupos para acompanhar o mercado de antiguidades com o intuito de fiscalizar a comercialização de peças provenientes do Iraque que saíram do país clandestinamente. Algumas foram confiscadas e repatriadas, outros objetos foram encontrados com soldados que retornavam. Mas o número é muito tímido e as peças mais preciosas que desapareceram do Museu, como a famosa harpa dos cemitérios reais da IIIª dinastia de Ur, dificilmente aparecerão à luz do dia, em um leilão nas grandes casas do ramo. Entram para o promissor e rico mercado negro de arte e circulam por caminhos sombrios” , diz Marcelo Rede. Foram esses caminhos sombrios que Robinson procurou colocar no papel.